Um ano de celibato pelo Reino: vida gerada, mortes oferecidas e a cruz assumida a cada dia

Sinto a necessidade de fundamentar este testemunho em três palavras-chave que, para mim, sintetizam profundamente a experiência do celibato vivido na vida leiga: vida, morte e a cruz de cada dia.
Vida
Após receber, em 1º de outubro de 2024, a resposta de que a Comunidade acolhia meu pedido pelo celibato, senti-me chamado a partilhar mais profundamente com minha família o caminho que Deus me convidava a trilhar.
Meus pais carregavam um desejo muito grande de serem avós, e essa notícia não correspondia exatamente ao que esperavam de seu único filho homem. Minha irmã mais velha, casada há alguns anos, também ainda não havia tido filhos. Humanamente, a situação parecia marcada por renúncia e silêncio. No entanto, acredito profundamente que Deus derramou uma graça especial para que o coração dos meus pais fosse dilatado na acolhida, e para que o matrimônio da minha irmã gerasse frutos.
No Domingo de Ramos de 2025, em uma videochamada, minha irmã e meu cunhado anunciaram, cheios de alegria, que seriam pais. Meu sobrinho estava sendo gerado — o neto que meus pais tanto desejavam. Durante a partilha, minha irmã comentou que acreditava que a concepção havia ocorrido no início de fevereiro, e que a previsão do nascimento era para novembro.
Ao encerrar a ligação, em meio aos meus louvores, o Senhor falou claramente ao meu coração:
“Este é um fruto do seu celibato.”
Meu sobrinho Nathan — cujo nome significa presente de Deus — nasceu em 04 de novembro de 2025, no mesmo dia do aniversário do nosso fundador, Moysés Azevedo.
O celibato não é esterilidade: é fecundidade espiritual.
Morte
Minha avó materna recebeu a notícia do meu celibato com certa estranheza. Na verdade, ela não compreendia muito bem o que significava ser celibatário vivendo uma vocação leiga — e, sendo sincero, poucos compreendem. Mas algo ela entendeu profundamente, e repetia em diferentes momentos:
“Ele é de Jesus!”
Ela compreendeu a quem eu pertencia.
No início de julho de 2025, minha avó sofreu um AVC. Mesmo lutando pela recuperação nos meses seguintes, veio a falecer no dia 16 de novembro. Foi um tempo de dor intensa para toda a família. Nesse momento, senti com clareza que Deus me chamava a ser sustento espiritual para aqueles que Ele me confiava de forma mais próxima.
Ali compreendi com mais profundidade que o celibatário é uma seta apontada para a eternidade — alguém que, com a própria vida, recorda que não fomos feitos apenas para este mundo.
O celibatário lembra, com a própria existência, que o Céu é real.
A cruz de cada dia
Ser celibatário da CAL é um desafio diário, sobretudo em um mundo que ignora Deus e rejeita qualquer sinal que remeta a Ele. No ambiente profissional, surgem questionamentos, olhares curiosos ou críticos, incompreensões vindas tanto de quem está afastado da fé quanto, por vezes, de quem frequenta a Igreja.
Mas tudo isso também se torna oportunidade de testemunho.
Recordo-me do meu primeiro dia em uma empresa, quando, após alguns minutos de conversa, alguém me perguntou:
“Lucian, eu não sou uma pessoa muito religiosa, mas percebi que você carrega uma cruz e usa uma aliança no dedo. O que você é?”
Foi uma excelente oportunidade para falar da minha identidade, da minha vocação e do Cristo que sustenta minha escolha.
No leito da cruz, com Jesus
Ao concluir este testemunho, busquei uma imagem que pudesse expressar o que é ser celibatário da Comunidade de Aliança. Lembrei-me do último retiro de Semana Santa, vivido na missão de Florianópolis, quando esta foto foi registrada durante a encenação da Via-Sacra.
Ser celibatário da CAL é:
- estar com Cristo em todos os lugares;
- carregar a cruz todos os dias;
- ser seta apontada para a eternidade;
- viver momentos de solidão, mas nunca de abandono;
- ofertar a própria vida, gerar paternidade espiritual, buscar diariamente o amor e a fidelidade.
É, em última instância, estar no leito da cruz, com Jesus.
O celibato é amar até o fim — com a própria vida.
por Lucian John
