Esta pergunta é, sem dúvida, um grande desafio posto a cadacidadão às vésperas das eleições deste ano. Isso, porque esta resposta não deveser construída, simplesmente, com a força e o discurso do mais sofisticadomarketing pautado na propaganda eleitoral que incorporou aquele tom antigo –associando à imagem do candidato suas promessas ou referências ao que ele fez.
No ar, de certo modo, está a dívida quanto à discussão depropostas mais consistentes e abrangentes como as exigências de reformas doEstado, tributária, política. É uma aberração apresentar-se ao eleitor etrabalhar o convencimento para que ele dê o seu voto por conta de promessas emesmo das realizações passadas. Este discurso, na verdade, revela a lacuna naeducação de um povo que pode se deixar convencer por argumentos emocionais epelo tratamento de suas necessidades básicas como se fosse um atendimento benevolentegerando devedores e tendo no voto o pagamento ou retribuição. É lúcido pensar edefender que não basta adotar esquemas de proteção e de oferta de tudo aquiloque é direito do cidadão. É preocupante, no cenário da sociedade brasileira, oquanto o emocional vai presidindo o embate político, influenciando nas escolhaspela ausência da clareza que advinda da consciência dos que são destinatários eportadores de um qualificado processo educativo. A consciência sóciopolíticaestá, intrinsecamente, ligada ao nível de educação recebida e cultivada. Porisso mesmo, estas eleições revelarão o nível da cultura política existente notecido da sociedade brasileira.
Ainda falta um longo caminho a percorrer, como fruto deprocesso educativo mais amplo e qualificado, para se compreender que apolítica, além da arte de transigir, é particularmente a arte de cuidar egarantir a justa ordem da sociedade e do Estado, seu dever central. Esteentendimento acende um facho de luz na pergunta acerca de quem merece seu voto.É importante lembrar o Papa Bento XVI na sua Carta Encíclica Deus caritas est,2005, quando diz que “a política é mais do que simples técnica para a definiçãode ordenamentos públicos: a sua origem e o seu objetivo estão precisamente najustiça, e esta é de natureza ética”. Ora, se a justiça é a origem e o objetivoda política e sua implementação é de natureza ética, conclui-se que ter fichalimpa é critério primeiro e fundamental para definir alguém como merecedor doseu voto.
A sociedade brasileira compreendeu e aderiu ao Projeto deLei Ficha Limpa aprovado, um entendimento que não tem o menor sentido de seradiado porquanto a moralização da política é uma das mais urgentes exigências eanseio da sociedade brasileira. Essa garantia de qualificação na candidatura seentrelaça com uma série de critérios importantes para que alguém seja merecedorde voto. Inquestionavelmente, torna-se merecedor do seu voto quem passa pelocrivo dos valores que possam permitir que o eleito respeite e lute pelademocracia, priorize direitos sociais para configurar um novo cenário,particularmente, para os mais pobres, sem jamais perpetuar programas e benessesque os mantenha reféns de comodidades geradas e de preguiças que atrasam opasso na conquista da própria autonomia. O merecimento do seu voto, em qualquercargo, Executivo ou Legislativo, não pode ser uma decisão determinada pelomarketing político que amordaça consciências e não permite a configuração decritérios que assegure ao cidadão seu direito de escolher, não por obrigação aser paga, mas na liberdade e autonomia que compõem a vivência autêntica dacidadania.
Na lista dos valores para configurar critérios que possamser alavancas de juízos adequados na escolha, incluem-se o respeito à vida emtodas as suas etapas, desde a fecundação até o declínio natural, o compromissocom a democracia, o respeito à liberdade de imprensa, o olhar e compreensão dopobre como sujeito e não como simples destinatário – incluindo a discussãosobre religião e a laicidade do Estado.
Nessa direção os católicos precisam se posicionar mais clarae diretamente nas suas escolhas para usufruir do seu direito, por diálogo eintercâmbio, de contar com governantes e parlamentares capazes de pautar suasações pelos valores do Evangelho e na fidelidade a princípios e valores, nãosimplesmente a interesses que possam abrir caminhos a negociações espúrias. Oscatólicos, no exercício de sua cidadania, como outros, todos, têm o desafio defazer a diferença pela força de escolher quem merece seu voto. Este desafio eembate devem ser enfrentados com fé e coragem.