A via da beleza como forma da Nova Evangelização
Parte III
À luz destas considerações[1], portanto, a via da beleza se coloca como o caminho privilegiado para poder pensar Deus de um “modo mais elevado” e comunicá-Lo ao nosso contemporâneo. O kerygma exige ser traduzido em categorias estéticas e mediado por um maior empenho teológico apto a individuar a linguagem mais coerente. Como bem se sabe, não se parte do zero, assim, a via da beleza como forma de evangelização possui uma sua história que merece ser conhecida. Seria muito significativo percorrer de novo as várias etapas que marcaram o caminho da evangelização através do belo.
Como para outras épocas, também para a nossa, talvez, se começou a descrever o outono da beleza sem poder fazer outra coisa senão constatar o seu declínio natural. Basta observar, no que diz respeito ao nosso tema, a construção de muitas igrejas para tocar de perto a impossibilidade da evangelização através da via da beleza. Placas de cimento sem nenhuma referência à transcendência se tornam os lugares para a celebração do culto, sem, contudo, permitir ao fiel de elevar-se, porque aprisionado a uma horizontalidade imanente sem possibilidade de fuga. A luz natural que penetrava pelos antigos vitrais é substituída pela frieza das lâmpadas de led normalmente posicionadas sem nenhuma lógica. O descuido dos vasos sagrados e das vestes litúrgicas impede de colher o fascínio do sagrado que se celebra. É uma situação embaraçosa e paradoxal. De fato, este momento histórico parece dominado pelo forte sentimento com o qual expressa a nostalgia da beleza; no entanto, parece que está acorrentado ao “brega”.
É urgente sustentar o desejo de conservar intacto aquilo que para o olhar superficial de muitos pode parecer somente ruínas, uma pilha de pedras antigas ou igrejas de outros tempos. Aquela beleza alcançada fala ainda hoje e suscita emoções talvez maiores, ainda que normalmente não faça referência à fé que a tinha suscitado e realizado. Talvez tenha chegado o momento de considerar a urgência de conjugar juntos a beleza com a bondade e a verdade, tão drasticamente separadas nos séculos recentes que ingenuamente se aproveitaram da autonomia da arte, distraindo-a da sua unidade essencial com os outros transcendentais. Quase espontaneamente derivaria a recuperação de uma visão religiosa da existência pessoal que em nada minaria a conquista científica, mas elevaria o seu horizonte porque restituiria aquela dimensão de humanidade que desapareceu com predomínio da técnica. A busca de sentido finalmente encontraria o lugar favorável para repousar, porque encontraria a resposta coerente, acima das várias formas de moralismo asfixiante que se assiste hoje, mas numa fé genuína e fecunda.
A beleza reconcilia o homem consigo mesmo. Permite-lhe experimentar de novo a beleza da natureza da qual ele saiu com um processo dramático, para colocar-se ao centro. É um caminho de reconciliação que empenha cada um em uma abertura ao transcendente, e lhe oferece um horizonte de sentido que não é parcial e fragmentário, enquanto centrado no próprio limite pessoal, mas definitivo e onicompreensivo, porque fundado em Deus. Por isso, a crescente nostalgia de Deus. O Deus escondido e negado retoma o seu posto.
Deus não se impõe como um velho que aponta o dedo para julgar, mas com o rosto radiante da beleza do Filho que doa amor. Uma via que permite entrar no próprio íntimo e descobrir que Deus nunca se afastou de nós, mas nos mantinha protegidos na fenda da rocha com a sua mão, como bem descreve o livro do Êxodo (Ex 33). Restituir a beleza às várias formas de evangelização é um projeto eficaz, o homem é conduzido ao silêncio, em um espaço no qual pode perceber a beleza do divino. A beleza de uma igreja e da liturgia ali celebrada podem tornar-se de novo a via para uma evangelização que oferece a certeza do amor de Deus que não abandona o seu povo, mas permanece ao seu lado e o protege.
A nossa história é repleta deste desejo de dar voz à beleza do amor, porque no auge de cada nova manifestação pessoal, leva a beleza na comunhão com a pessoa amada e com Deus, fonte de todo amor, que desagua na alegria de viver. Por outro lado, só a beleza é condição para manter intacta a alegria e a serenidade que brotam da percepção e contemplação do amor que se torna visível.
✠ Rino Fisichella
[1] A primeira parte deste texto está disponível AQUI!
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