Você já parou para pensar que o conceito de “guerra justa” está ficando tão ultrapassado quanto as armaduras de metal? Pois é. O que antes era discutido em salas de aula e púlpitos como uma necessidade dolorosa, hoje soa mais como ‘sentença de morte’ para toda a civilização.
Com armas que podem apagar cidades do mapa num clique e conflitos que fogem do controle em minutos, a pergunta mudou. Agora, o que importa não é saber se a guerra é “justa“, mas se ela ainda faz algum sentido como solução — ou se ela é apenas um “massacre inútil“, como já alertava o Papa Bento XV há mais de um século.
Este debate ganha um peso ainda mais simbólico agora em 2026, quando celebramos o oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis. O “Poverello”, que lá no século XIII já atravessava linhas de frente em plena Cruzada para dialogar com o Sultão, deixou um legado que é pura vanguarda.
Para o santo, baluarte da Comunidade Católica Shalom, ser um “instrumento de paz” não se reduzia a um desejo passivo ou romanceado, mas uma missão ativa de desarmar o coração antes de desarmar as mãos. Ele compreendeu, há oitocentos anos, que não se constrói a paz impondo a força, mas com a coragem para sermos proativos na edificação da fraternidade universal.
A Bússola Ética: O Papel da Doutrina Social da Igreja
Em recente manifestação no perfil do Instituto Parresia no Instagram Eric Buarque, Coordenador do Instituto Parresia trouxe uma visão muito lúcida sobre como essa chave virou dentro do pensamento atual, destacando que a Doutrina Social da Igreja (DSI) atua como a bússola ética desse debate. Segundo ele, a DSI eleva a paz de um simples “acordo de não agressão” para o status de um “fruto da justiça“.
Na visão de Buarque, a Igreja compreende que a paz é uma construção artesanal e cotidiana. Ela não cai do céu por decreto, mas nasce da nossa capacidade de estruturar a sociedade respeitando a dignidade de cada pessoa.
Ele reforça ainda que não podemos mais olhar para os critérios antigos de guerra porque o mundo mudou demais. Se antes se falava em “defender o território“, hoje o imperativo é defender a própria humanidade. Assim, a paz não é apenas a ausência de tiros, mas uma escolha consciente de reconhecer o outro como um irmão, não como um alvo.
Por Que a Paz Deve Ser Nossa Única Bandeira?
Defender a paz “em qualquer circunstância” longe de ser utópico é, na verdade, o maior ato de “pé no chão” que podemos ter. E isto se deve a vários motivos:
Primeiramente, em situações de guerra verifica-se um verdadeiro O Ciclo do Ódio. A história ensina que uma guerra nunca termina de verdade no papel; ela planta a semente de uma próxima e mais cruel revanche. A paz real só vem quando se decide quebrar esse ciclo de uma vez por todas. Ademais, não há fronteira ou ideologia política que valha mais do que a vida de uma única criança. Quando aceitamos a guerra, aceitamos que pessoas são peças descartáveis em um tabuleiro de interesses.
Veja-se que a resolução de problemas na base da força é o caminho mais fácil e, convenhamos, o mais limitado. O verdadeiro desafio — e a nossa maior glória como espécie — é usar a diplomacia e a empatia.
A Doutrina Social da Igreja (DSI) atua como a bússola ética desse debate, elevando a paz de um simples “acordo de não agressão” para o status de um “fruto da justiça e efeito da caridade”. No cerne desse conjunto de ensinamentos, a paz é apresentada como um bem comum universal que exige, obrigatoriamente, o desenvolvimento integral dos povos e o respeito inalienável aos direitos humanos.
Em um mundo que muitas vezes prefere o lucro das armas à saúde das nações, a Doutrina Social da Igreja nos convoca a uma “metanoia”, uma mudança de mentalidade para entender que, no banquete da criação, ou todos se sentam à mesa em segurança, ou ninguém estará verdadeiramente em paz
Conclusão: O Amanhã Começa no Diálogo
A ideia de que a guerra é um “mal necessário” precisa ser deixada no passado. Se a humanidade quer ter futuro, urge falar a língua da paz, mesmo quando for difícil. A paz é um investimento de alto risco, mas é o único que traz retorno para todos.
Em um mundo que muitas vezes prefere o lucro das armas, a convocação é para uma mudança de mentalidade: ou todos se sentam à mesa em segurança, ou ninguém sobreviverá para estar verdadeiramente em paz.
Paulo César Gomes Albuquerque
Instituto Parresia – Setor Comunicação
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