Dos dias 1 a 5 de fevereiro, tive a graça de participar de uma peregrinação no Saara tunisiano. Foi, antes de tudo, uma grande fonte de renovação espiritual. Éramos um grupo de 21 pessoas, provenientes de diversas congregações — leigos e consagrados que servem na Igreja da Tunísia. Fizeram parte da equipe também os cameleiros, que nos guiaram e nos ajudaram de forma concreta — na montagem das tendas, nas refeições e na orientação do caminho — permitindo que vivêssemos esses dias na paz e na simplicidade.
Tudo aconteceu de maneira natural e leve. Vivemos uma verdadeira comunhão fraterna, como se aquele grupo já tivesse o hábito de se encontrar. Chegamos por volta das 14h à cidade de Sabria, localizada a mais ou menos 280 quilômetros da nossa cidade de Sfax, e fomos calorosamente acolhidos com uma refeição quente. Em seguida, iniciamos nossa grande marcha pelo deserto.
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Pessoalmente, eu já havia feito a experiência do deserto, mas era a primeira vez que nele adentrava e permanecia por mais tempo: seriam três noites dormindo em tendas e quatro dias de caminhada. O primeiro grande despojamento foi deixar para trás a segurança da minha casa, o conforto da vida ordinária e de uma rotina previsível. Tudo isso foi ficando para trás e dando lugar a uma profunda experiência de confiança e abandono: confiar naqueles que nos conduziam, nas pessoas mais experientes que estavam à frente do projeto e, sobretudo, confiar em Deus.
Assim se passou a primeira tarde de caminhada, vivida na absoluta confiança, deixando-me esvaziar das minhas seguranças para entrar na dinâmica do abandono. Como diz um antigo Padre do Deserto:
« Se queres encontrar Deus, deixa aquilo que te sustenta para aprender a ser sustentado por Ele. »
Ao chegarmos ao local do acampamento da primeira noite, instalamo-nos e, logo em seguida, celebramos a Eucaristia. O Pe. Anand, que havia organizado tudo com antecedência, nos guiou nesse primeiro momento e nos convidou a descobrir, no mais profundo do coração, o motivo pelo qual havíamos acolhido aquele convite. De forma consciente ou inconsciente, fomos atraídos para aquele lugar, como diz a Palavra de Deus :
« Eu a atrairei ao deserto e lhe falarei ao coração » (Os 2,16).
Duas perguntas ecoaram fortemente em nosso interior:
Por que estou aqui?
Por que minha comunidade me permitiu estar aqui?
O deserto é o lugar onde Deus fala, o lugar da purificação. É um lugar de passagem, mas não de permanência — dizia o Pe. Anand em sua primeira homilia. Estamos ali para sermos renovados, para descobrir algo novo. O deserto é lugar de busca de equilíbrio e de contemplação do infinito. Como dizia Santo Agostinho, filho da África do Norte:
« Foste Tu que nos criaste para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti. »
Após a missa, seguimos para o jantar em torno do fogo, que, além de nos aquecer, iluminava a noite. Músicas e cantos árabes, acompanhados pelos instrumentos tocados pelos cameleiros, animaram essa primeira noite, criando um momento inesquecível de fraternidade e partilha.
O segundo dia começou com o café da manhã, seguido das Laudes e de um momento de ensinamento, mergulhando no texto do Livro do Êxodo (1,1–22). Fomos convidados a entrar em um silêncio interior, para nos deixarmos invadir pela presença de Deus.
Nesse dia, o vento soprava forte, tornando o caminho mais árduo. Foi uma caminhada verdadeiramente ascética, que nos ajudou a crescer na perseverança. A cada passo, o Senhor nos convidava ao silêncio — um silêncio quase imposto pela imensidão do vazio, pelas dunas de areia e pela ausência de ruídos exteriores. No deserto, o silêncio fala; é um silêncio que conduz à escuta profunda.
Os Padres do Deserto diziam:
« Ensina tua boca a calar, para que teu coração aprenda a escutar. »
No dia 2 de fevereiro, celebramos também a Festa da Vida Consagrada, ocasião para fazer memória do chamado do Senhor e lançar nosso olhar para a grandeza de Deus, para o infinito.
Apesar do vento quente e da dureza do caminho, permanecemos firmes no louvor. Ao cair da tarde, celebramos a Eucaristia presidida pelo Pe. Daniel (salesiano), agradecendo ao Senhor por todas as graças vividas naquele dia. O jantar em torno do fogo e o momento de partilha em grupo marcaram profundamente nossa segunda noite de peregrinação.
O terceiro dia iniciou-se com a Santa Missa, presidida pelo Pe. Prudence (lazarista), seguida das Laudes e de um breve momento de ensinamento:
« O Senhor é minha força e meu canto » (Ex 15,2).
Partimos novamente para uma nova etapa da caminhada pelo deserto, sem nos apegarmos ao oásis onde havíamos passado a noite, onde fomos acolhidos, alimentados e protegidos. Sabíamos que, em algum momento, outro oásis surgiria — talvez ainda mais verdejante. Caminhar entre as dunas, a pé ou sobre o dromedário, era mais um convite a deixar-se conduzir por Cristo.
Cada irmão poderia dar testemunho da profundidade e intensidade desses dias. A adoração ao final da tarde do terceiro dia, a última noite nas tendas — quando o vento parecia não permitir que permanecessem de pé —, os momentos de oração, de koinonia, de descoberta mútua e de liberdade interior marcaram profundamente nossos corações.
Cada pessoa, com sua maneira de ser, foi essencial para que esses dias fossem vividos com tanta beleza. Entre tantas descobertas, guardo com carinho os momentos de oração e as partilhas com irmãos que eu já conhecia há muito tempo, mas com os quais foi essencial parar, escutar, conviver e contemplar a beleza de cada um.
O deserto foi também uma experiência profunda de ser e sentir-se família: na hospitalidade dos cameleiros, que nos serviram com generosidade, e na partilha dos dons de cada irmão consagrado.
Que, nestes dias que antecedem a Quaresma, possamos fazer a experiência do silêncio e da escuta de Deus, para que nos tornemos oásis nos desertos que atravessamos em nossas vidas, diante dos inúmeros desafios do nosso dia a dia.
Ana Paula Soares de Souza
Missionária da Comunidade Shalom
Em missão na Tunisia





