O Domingo de Ramos é, para a Igreja, a abertura da semana mais solene e importante do ano: aquela que nos mergulha na intensidade do amor de Deus — a Semana Santa.
Como narra o evangelista, celebramos a chegada e a recepção de Jesus em Jerusalém, a mesma cidade onde, mais tarde, viverá sua Paixão.
Quão paradoxal pode ser, para nós, essa série de eventos, se pararmos para pensar…
Um povo que esperava libertação
O contexto histórico dessa época nos apresenta algumas características que facilitam a compreensão de toda a simbologia deste dia.
Jerusalém era o centro religioso dos judeus e estava sob o domínio do Império Romano. Havia, por isso, uma forte expectativa pela vinda de um Messias político e libertador, que viria com força, poder, armas e estratégias para libertá-los dos romanos e de governadores como Pôncio Pilatos, conhecido por sua dureza, insensibilidade e postura provocadora.
Criava-se, então, um clima de repressão silenciosa: um povo que, ciente de sua própria impotência, sabia que não havia, em si mesmo, a possibilidade de libertação e, por isso, depositava toda a sua esperança na chegada de alguém que pudesse resgatá-lo.
Além da multidão que o aguardava, havia fariseus e outras autoridades em estado de alerta, diante da possibilidade de uma revolta da população — outra evidência da tensão que consumia o povo.
Um Rei que desconcerta
Desconcertantemente, o Senhor que chega vem indefeso.
Não há armas, nem espetáculo, nem poderio militar. Nada.
Somente um jumentinho — um animal simples, associado aos mais pobres.
Contrário ao que muitos possam pensar, sua entrada dessa forma não nega sua realeza, mas a redefine, rompendo com tudo o que o coração humano — pretensioso e com ares de grandeza — espera.
Cristo vem manso, pobre e cheio de uma determinação que, justamente por ser amor, não quer se impor nem dominar, mas humildemente oferecer-se e entregar-se.
Um Deus que não é como nós
Deus, nessa lógica humanamente absurda — poderíamos dizer, louca de Amor —, vem provar-nos que não é como nós (cf. Nm 23,19). Por isso, pela nossa fraqueza em enxergar além das nossas expectativas de poder, torna-se tão difícil reconhecê-Lo.
Ele sabia que o povo não O via verdadeiramente e que aqueles que diziam:
“Hosana ao Filho de Davi!”
posteriormente bradariam:
“Crucifica-o!”
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A hora da revelação
O Senhor, que durante seu tempo de vida pública sempre evitou os holofotes e as agitações dos afetos do povo —
“Ordenou-lhes severamente que ninguém o soubesse” (Mc 5,43)
“Ordenou a seus discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Cristo” (Mt 16,20)
— agora se vê diante da Verdade: era chegada a sua hora.
Era preciso testemunhar publicamente aquilo que vinha afirmando e aquilo que o povo, por meio dessa recepção, também começava a reconhecer.
Tamanha foi a comoção que até os fariseus se viram de mãos atadas:
“Vede: nada conseguis. Todos vão atrás dele!” (Jo 12,19)
E nós?
Tantas vezes não somos nós esses que vão atrás?
Erguemos ramos, gritamos por Ele… mas quanta dificuldade em reconhecer o Rei que vem na simplicidade.
Repetidamente esquecemos:
- que foi Ele quem se encarnou e sequer tinha lugar para nascer;
- que foi colocado numa manjedoura;
- que era filho de um carpinteiro;
- que não tinha onde reclinar a cabeça (cf. Mt 8,20);
- e que, dentro de poucos dias, se abaixará, lavará e beijará os pés dos seus.
Um convite à Semana Santa
Que este Domingo de Ramos e a Semana Santa nos lembrem quem é Deus e nos conduzam ao mistério do Senhor:
Rei que vem a nós cumprir, em dolorosa ternura, sua promessa de nos abrir o Céu.
Shalom. Deus os abençoe!
Por Vitória Ponciano
Shalom, Comunidade de Aliança – Missão Fortaleza