Todas as vezes que eu me lembro da Quinta-Feira Santa, a primeira imagem me vem à cabeça é naturalmente a do Lava-pés. Na verdade, muita gente chama a celebração de Quinta-feira à noite de “Missa do Lava-pés”, porque talvez seja muito impactante ver atualizado aquele mesmo gesto de Jesus.
Sendo realizado à luz do Evangelho de João (cf. Jo 13,4-34), o rito tradicionalmente tem um duplo significado: imitar o que Jesus fez no Cenáculo, lavando os pés dos apóstolos, e expressar o dom de si, simbolizada por esse gesto servil. A segunda opção de canto oferecida pelo Missal Romano para acompanhar esse momento diz: “Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 13,34). Desta forma compreendemos porque foi chamado de Mandatum (mandato). O mandamento do amor fraterno, de fato, une todos os discípulos de Jesus, sem distinção ou exceção.
Contexto histórico
A lavagem dos pés era uma característica da hospitalidade no mundo antigo. Era um dever do escravo para com o senhor, da esposa para com o marido, do filho para com o pai, e era realizado com uma bacia especial e uma toalha, que com o tempo se tornou uma espécie de uniforme (um avental) para aqueles que serviam à mesa.
Os convidados de um jantar eram recebidos à porta por um servo que lhes lavava os pés, o próprio Jesus se refere a isso quando na casa de Simão, o fariseu, elogiou a atitude da mulher que lhe ungira (cf. Lc 7,44). Na narrativa da ceia, é Jesus que desempenha o lugar do escravo à porta, numa espécie de ato profético e simbólico. Na Carta aos Filipenses, São Paulo no grande hino cristológico do capítulo segundo, evidencia o que Jesus realiza naquele gesto: “…mas esvaziou-se a si mesmo assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens…” (Fl 2,7).
Jesus lava os pés sujos dos discípulos e torna-os assim capazes de aceder ao banquete divino para o qual Ele os convida. As purificações cultuais e exteriores, que purificam o homem ritualmente, deixando-o contudo tal como ele é, são substituídas pelo banho novo: Ele torna-nos puros mediante a sua palavra e o seu amor, mediante o dom de si mesmo. “Vós já estais limpos, devido à palavra que vos tenho dirigido”, dirá aos discípulos no sermão sobre a videira (Jo 15, 3)”.”
O rito do Lava-pés
Vamos analisar um pouco o rito do lava-pés. Se lermos com atenção o texto joanino encontramos um paralelo muito belo entre os gestos do sacerdote e os de Jesus.
O texto bíblico diz:
“[Jesus] levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido.” (Jo 13,4-5) .”
O Missal Romano enuncia:
“Terminada a homilia, procede-se ao lava-pés… O sacerdote (tendo retirado a casula, se necessário) aproxima-se de cada uma das pessoas, lava e enxuga-lhe os pés, auxiliado pelos ministros.”
Assim como Jesus, o Bispo (ou o sacerdote) “levanta-se” da mesa do banquete da Palavra, depõe os paramentos e diante dos escolhidos se inclina para lavar-lhes os pés, passo a passo como Jesus fez. Não é um teatro, por isso as pessoas não estão vestidas com trajes típicos da época de Jesus, o que se testemunha é uma verdadeira atualização do ato de Cristo, uma imagem da Igreja que serve, e naqueles escolhidos vemos claramente a representação de todos os discípulos do Senhor reunidos nesta noite em torno do seu Mestre e que agora também são chamados a lavar os pés uns dos outros. “Lavar os pés uns aos outros significa sobretudo perdoar-nos incansavelmente uns aos outros, recomeçar sempre de novo juntos, mesmo que possa parecer inútil.”

O costume de lavar os pés remonta ao séc. VII. Antes reservado ao clero, com a reforma de Pio XII, que trouxe a Missa in Cena Domini de volta para o horário da noite, o lava-pés, por razões pastorais, pode ser realizado durante a mesma Missa, após a homilia, por “doze homens escolhidos”, dispostos no meio do presbitério, o beijo, um costume antigo, não é mais mencionado, porém permanece muito vivo. Cabe aos pastores escolher um pequeno grupo representativo de todo o povo de Deus. Aos escolhidos cabe oferecer sua disponibilidade com simplicidade como um discípulo cuja vida é a anamnese do “novo mandamento” ouvido no Evangelho.
A Oração Coleta da missa inicia situando na hora em que estamos: “Ó Pai, estamos reunidos para a santa Ceia”, e quanto amor havia ali, Jesus mesmo disse a desejou ardentemente (cf. Lc 22,15), os olhos dos discípulos estão fitos no Mestre e tudo fala do amor que oferece a própria vida pelos seus. Um novo mandamento, um novo sacerdócio, pão e vinho, Seu Corpo e Sangue… Deus ajoelhado tomando o nosso lugar e ensinando o que devemos fazer para ser reconhecidos como seus: a bacia e a toalha, a minoridade. Era noite, daqui a pouco o Filho será entregue, mas agora a ternura do seu coração abrasado faz esse gesto de amor e profecia. O Amor vestiu-se com um avental e fez dele o seu manto real, porque é verdade que quem serve reina. “Compreendeis o que acabo de fazer? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros.” (Jo 13,12b-14).
