O Tríduo Pascal é o coração do ano litúrgico, mas esses dias tão santos têm também um coração: a Solene Vigília Pascal. É ela que Santo Agostinho dizia ser a “mãe de todas as vigílias”. Nesse coração pulsante, depois que a Luz do Círio Pascal iluminou as trevas que cobram a igreja, espalhando sua luz através das velas do povo, é entoado um hino, o mais belo e carregado de significado de todos os hinos da Igreja. Eu, particularmente, espero ansioso por esse dia, para escutar esse hino que – na Catedral de Fortaleza, especialmente – tem uma beleza sem par. Há uma atmosfera que envolve o fiel, a ponto de fazer aquecer o coração e tremer na presença do Ressuscitado, tamanho é o júbilo e a exultação do povo.
Estamos diante de um dos mais antigos e esplendorosos monumentos da piedade litúrgica da Igreja. Talvez não exista outro exemplo de um discurso teológico tão preciso, sustentado por uma onda poética tão elevada e poderosa, onde a imagem e a ideia estão tão perfeitamente ligadas à corrente da alegria e do amor que este hino evoca.
Origem do Hino
Não se conhece exatamente a origem desta obra-prima, chamada tanto de laus cerei (Louvor do Círio) quanto de præconium paschale (proclamação da páscoa), ou ainda de Exultet. Quem a escuta pode ouvir eco das palavras e ensinamentos da teologia mais antiga – a de São Paulo, por exemplo – e que depois encontrará suas expressões mais sublimes e paradoxais nas fórmulas de Santo Agostinho e Santo Ambrósio: “Ó feliz culpa!”. O texto atual é provavelmente datado do século V.
Não comentaremos metodicamente cada frase do Praeconium paschale, pois isso não explica o mistério nem a poesia; além do mais, de tão precisas e densas são suas grandes afirmações teológicas que qualquer comentário se revela incapaz de lhes acrescentar luz. Mas podemos sublinhar uma palavra, uma frase, sugerindo um caminho para a contemplação e a meditação.
Exulte o céu, e os anjos triunfantes,
mensageiros de Deus, desçam cantando;
façam soar trombetas fulgurantes,
A vitória de um Rei anunciando.
Exultet (Exulte), essa é a primeira palavra que define o tom de toda a canção. No latim exsultare significa “pular de alegria”. Mas será que sabemos o que significa exultar? A Igreja sabe. A Virgem Maria sabe, assim como os Santos que passando por provações transbordavam de alegria, como Paulo em meio às tribulações (cf. 2Cor 12,10; Rm 8,18; At 16,25). Exultar é regozijar-se não pelo bem encontrado em si mesmo, mas pelo bem que reside na alma. A alegria da Esposa de Cristo é uma alegria que não é terrena, mas celeste.
Alegre-se também a terra amiga,
que em meio a tantas luzes resplandece;
e, vendo dissipar-se a treva antiga,
ao sol do eterno Rei brilha e se aquece.
A liturgia da Igreja é uma escola de contemplação e alegria. Quando escutamos “corações ao alto”, estamos sendo convidados ao êxtase, à exultação, à contemplação. O Precônio Pascal é um prolongado louvor que se faz ouvir pela voz da Esposa, da alma diante do mistério da sua libertação. Uma alegria cósmica, o céu, os anjos, a terra amiga se alegra diante da glória do Ressuscitado. A terra que antes testemunhou tantos crimes e pecados ao longo dos tempos, tendo absorvido as correntes do Sangue Redentor, agora também se alegre, irradiada por uma luz que a renova e a penetra profunda e completamente! Este é o primeiro esboço de sua transfiguração vindoura (cf. Ap 21,1-5).
O tema da noite
Algumas estrofes do hino cantam a beleza, a graça e o significado desta noite. Na tradução para o Brasil, a palavra “noite” aparece nove vezes, seja para recordar os feitos de Deus quando agiu com mão forte e libertou seu povo do Egito (“Esta é, Senhor, a noite em que do Egito retirastes os filhos de Israel..” e ainda, “Ó noite em que a coluna luminosa as trevas do pecado dissipou…”), ou ainda para enunciar a bem-aventurança dessa noite, pois foi ela a única testemunha do mistério.
Quanta ternura escutamos na estrofe:
“Só tu, noite feliz, soubeste a hora em que o Cristo da morte ressurgia;
e é por isso que de ti foi escrito: A noite será luz para o meu dia”.
Este enlevo da noite, constantemente revisitado, é muito mais do que um mero recurso literário. É, na verdade, hino que faz da noite uma verdadeira colaboradora dos planos de Deus: “Pois esta noite lava todo o crime, liberta o pecador do seus grilhões; dissipa o ódio e dobra os poderosos, enche de luz e paz os corações.” O Exultet mistura abordagem didática e encanto.
As grandes exclamações do “Ó!”
No cerne do canto, há quatro grandes exclamações precedidas pelo vocativo “Ó” , através da força e ousadia da proposição teológica, atingem uma intensidade luminosa. Se pararmos um pouco para contemplar, o fruto dessa meditação supera qualquer comentário. Basta citá-las, sentindo simplesmente que a melodia doce e decisiva se harmoniza maravilhosamente com o texto:
Ó noite em que Jesus rompeu o inferno,
ao ressurgir da morte vencedor:
de que nos valeria ter nascido,
se não nos resgatasse em seu amor?
Ó Deus, quão estupenda caridade
vemos no vosso gesto fulgurar:
não hesitais em dar o próprio Filho,
para a culpa dos servos resgatar.
Ó pecado de Adão indispensável,
pois o Cristo o dissolve em seu amor;
ó culpa tão feliz que há merecido
a graça de um tão grande Redentor!
Como não escutar aqui a voz de Santo Agostinho bradando: “Felix culpa” (feliz culpa)? Em suas Confissões, Agostinho fornece a chave para a compreensão dessa palavra misteriosa. Quando o santo doutor expressa sua tristeza pela malícia do pecado que tanto o fascinava, ele expressa sua admiração pela abundância da misericórdia divina, que busca curar e que procura restaurar, da maneira mais sublime possível, o estado de inocência.
Através das grandiosas aclamações do Exultet, a Igreja nos conduz das lágrimas da penitência à contemplação admirada do mistério da Redenção. Em seguida, o diácono retoma o elogio da noite pascal, recordando mais uma vez a Páscoa da Antiga Aliança como prefiguração da verdadeira Páscoa:
Só tu, noite feliz, soubeste a hora
em que o Cristo da morte ressurgia;
e é por isso que de ti foi escrito:
A noite será luz para o meu dia!
Pois esta noite lava todo crime,
liberta o pecador dos seus grilhões;
dissipa o ódio e dobra os poderosos,
enche de luz e paz os corações.
Ó noite de alegria verdadeira,
que prostra o Faraó e ergue os hebreus,
que une de novo ao céu a terra inteira,
pondo na treva humana a luz de Deus.
Neste momento entra em cena no hino o “fogo novo” como um sacrifício de louvor ao Pai, que o seu povo acendeu para render graças pelo Filho.
Na graça desta noite o vosso povo
acende um sacrifício de louvor;
acolhei, ó Pai santo, o fogo novo:
não perde, ao dividir-se, o seu fulgor.
Não ficamos indiferentes à sútil descrição que o texto faz ao material do qual o Círio é feito:
Cera virgem de abelha generosa
ao Cristo ressurgido trouxe a luz.
De uma forma muito bela, o canto pascal revela uma imagem que ao mesmo tempo desperta curiosidade e enlevo. O que tem a abelha com a Páscoa? A cera de abelha, também usada para fazer velas, simboliza a pureza virginal de Maria e a humanidade de Cristo. A cera de abelha, feita por abelhas “virgens” (operárias), é sinal do corpo de Cristo gerado no ventre da Virgem Maria.
Na antiguidade a parafina não existia, então as velas eram feitas de cera de abelha. Algo que nos faz pensar que nesta nova criação que se dá pela Ressurreição de Cristo, o Pai também se utiliza de suas criaturas para celebrar o seu Filho, tornado para nós um novo Adão. A abelha ainda é chamada de “generosa” para lembrar o caráter sacrificial de sua oferta.
Mais uma vez sinais do Antigo Testamento, movendo-se em sua penumbra anunciadora, são evocados:
eis de novo a coluna luminosa,
que o vosso povo para o céu conduz.
Assim como a Coluna de fogo brilhou na escuridão da noite daquela primeira Páscoa, esta coluna brilhará para nos levar à frente dessa procissão, rumo à Jerusalém Celeste.
As duas últimas estrofes do Exultet falam de um dia sem fim: “misture sua luz à das estrelas, cintile quando o dia despontar.” Algumas versões chegam a dizer: “O encontre aceso a estrela da manhã”. em todo caso o “dia” e “a estrela” são sinais de Cristo Ressuscitado, que recebe o sacrifício que o povo oferece ao Pai. A canção termina com a promessa de que “um dia voltará, sol triunfal”.
A canção termina, e quem a proclama deve estar ofegante. Seu coração bate forte, mais interiormente iluminado pelas palavras sublimes que lhe saíram dos lábios. O povo? O povo está feliz, é Páscoa finalmente, e o “Amém” que ressoou dos seus lábios fez tremer as paredes da Igreja. No ambão, o livro das leituras está aberto, e agora será ouvido sob uma nova luz o leitor evocando as primeiras eras do mundo.