No artigo passado falamos da ação do Espírito Santo, na Eucaristia como uma fonte, um fogo vivo que transborda e gera a vida, mas também que nos transforma em eucaristias vivas e porque nos transforma, dinamiza, põe em movimento a ação evangelizadora da Igreja.
Vamos continuar então a contemplar a presença do Espírito Santo na Eucaristia?
A Igreja, Esposa de Cristo todos os dias celebra o Banquete da Eucaristia, fazendo memória do seu Senhor e inserindo o sacrifício redentor do seu Esposo na vida e na história dos homens. Desde o Pentecostes a igreja manifestou a sua essência na perseverança “no ensinamento dos apóstolos, em comunhão, na fração do pão e nas orações” (At 2,42), ou seja, koinonia e liturgia, uma está ligada a outra e pode moldar a outra; é por isso que facilmente podemos entender a expressão de São João Paulo II que diz: “a Eucaristia edifica a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia”.
A oração é verdadeiramente eclesial quando a assembleia, o Corpo Místico de Cristo, se deixa ser animada pelo Espírito Santo, se abre a sua ação. Quando santificada e feita sacerdotal pelo Espírito Santo, a assembleia eleva ao Pai, através do Filho e na unidade do Espírito Santo, “orações, súplicas e ação de graças” (Fl 4,6).
É muito significativo aquilo que vivemos na Oração Eucarística por exemplo, toda a oração flui para a grande doxologia: “Por Cristo, com Cristo, e em Cristo, a vós, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda glória, por todos os séculos dos séculos.” Sim, nesta unidade dada e criada pelo Espírito Santo, que como dizia uma forma antiga da doxologia, “está presente na santa Igreja”, nesta unidade a nossa vida é colocada num movimento de perene ofertório. Daí podermos dizer que quem come deste pão deve se transformar para os outros em Eucaristia viva, deve se transformar num fogo que pela força do Espírito acende outros fogos.
A liturgia é uma verdadeira manifestação da santidade de Deus, comunicada, como primícias e profecia, aos homens e a toda criação. Na liturgia e graças a ela, ocorre uma Pericorese (interpenetração e comunhão mútua e íntima das três Pessoas da Santíssima Trindade), como uma troca circular na qual o Espírito Santo, que é comunhão (koinonia: 2Cor 13,13), realiza a Comunhão dos Santos, através da comunhão com as coisas santas (cf. CIC 960). Este movimento é esplendidamente resumido pelo anúncio solene que nas liturgias orientais precede a comunhão dos fiéis: “as coisas santas são para os santos” (cf. CIC 948). Na Liturgia ocidental o sacerdote também expressa essa verdade de comunhão quando apresenta o corpo de Cristo aos fiéis dizendo: “Felizes os convidados para a ceia do Senhor”.
Os dons colocados sobre o altar são santos, pois o Espírito Santo desceu sobre eles; mas assim sois vós, pois sois participantes de Deus, do mesmo Espírito. Existe, portanto, uma correspondência perfeita entre as coisas sagradas e os santos. E quando respondem: “Um só é o Santo, um só é o Senhor, Jesus Cristo, para glória de Deus Pai”, afirmam que um só é santo por natureza, mas vós o sois por participação (São Cirilo de Jerusalém, Catequeses mistagógicas V, 19).
Gostaria ainda de propor uma outra reflexão, a partir do que lemos acima, escrito por São Cirilo de Jerusalém: “Os dons colocados sobre o altar são santos, pois o Espírito Santo desceu sobre eles”. Toda Missa é uma epifania do Espírito Santo. Por isso, a oração da epiclese, antes da consagração, vai acompanhada pelo gesto da imposição de mãos sobre os dons a serem consagrados.
No Antigo Testamento, entre as várias prescrições sobre os sacrifícios, o fogo ocupava um lugar indispensável, vindo do céu, e que deveria estar no altar para a consumação das vítimas e dos sacrifícios (Cf. Lv 9,24; 2Mc 2,10), dessa forma, as vítimas eram separadas totalmente da terra e subiam a Deus. Mas também há fogo no altar no Novo Testamento. Com efeito, no Apocalipse, o anjo enche o incensário do fogo do altar (Ap 8,5). Em nossos altares há “fogo”. Esse fogo é o Espírito Santo. Não podemos esquecer também, do nosso fundador e Moderador Geral, Moysés Azevedo que constantemente repete a máxima:
“Onde há oferta, há fogo!”
O Espírito paira sobre os dons do Pão e do Vinho e os faz Corpo e Sangue de Cristo, mas também a nós nesse mistério insondável faz ofertas vivas, por Cristo, com Cristo e em Cristo. Quem participa da missa, aberto à ação do Espírito, faz a experiência dos discípulos de Emaús: ardia o nosso coração dentro de nós (cf. Lc 24,32). Há fogo em nossos altares! Só não se dá conta quem se deixa esfriar na caridade.
Olhemos agora o momento em que estamos rezando o Pai Nosso, logo após a doxologia, após esse grande ofertório, o Espírito Santo guia a nossa oração. A 3ª edição do Missal Romano no Brasil traz um convite a oração do Pai Nosso que retrata bem o que queremos exemplificar: “Guiados pelo Espírito Santo, que ora em nós e por nós, elevemos as mãos ao Pai e rezemos juntos a oração que o próprio Jesus nos ensinou”. Esse convite põe em relevo que o Espírito Santo nos faz chamar a Deus de Abbá-Pai (cf. Rm 8,15. 26–27), com os lábios e o coração. Seria impossível não pensar em Jesus, cheio do Espírito Santo rezando ao Pai, nós também com os pulmões cheios do Espírito Santo, elevamos as mãos, o coração e a voz para fazer a oração do Senhor, a oração dos filhos, dos pobres, de quem está cheio do sopro divino.
O Espírito Santo é a alma da Igreja, ele é também a alma da liturgia. Sem o Espírito Santo não há liturgia. Foi ele quem a inspirou no coração e na mente de tantos que escreveram as orações, organizaram as festas e guiaram e fortaleceram a devoção dos fiéis. Ele inspira os artistas a compor as músicas, a preparar as melodias. É o Espírito Santo que age nos artistas que criam as peças litúrgicas para o culto, nos iconógrafos que escrevem os santos ícones e escultores que representam os mistérios de Deus e de seus santos. É o “dedo de Deus” que unge os sacerdotes que “In persona Christi’, presidem a assembleia dos fiéis.
Vem Espírito Santo!
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