A vida moderna funciona como um mercenário que não se importa com as ovelhas. Ela nos promete uma infinita liberdade, mas nos entrega uma espécie de escravidão gourmetizada. O problema central não é apenas o alimento ultraprocessado que nos inflama ou o scroll infinito que adoece a mente, mas é a escolha consciente de um vazio de pastoreio.
Assim, adoecemos por nos curvarmos sobre nós mesmos, guiados pela voz do ego, exercendo sobre nós o próprio pastoreio e, pior, encontrando em si a própria fonte de sentido. O resultado? O completo esgotamento cuja estrutura colapsa sob o peso da finitude.
Esse isolamento existencial nada mais é do que a atualização da insídia original: a inútil tentativa de ascender à divindade por meios próprios, conforme a sedutora e catastrófica promessa de Gênesis 3, 5: ‘Sereis como Deus’.
A Falácia da Autonomia e o Abismo descrito por Ratzinger
A sonhada autonomia é uma mentira. A infinita liberdade, uma falácia. Diante da primeira tempestade existencial — seja a morte, o sofrimento ou o vazio — o homem deixa de ser o capitão de seu destino para se tornar algo abandonado, à deriva.
Ratzinger, na fabulosa obra Introdução ao Cristianismo[1], aborda a modernidade naufragada cujo evento não se dá de forma acidental, mas como a consequência lógica da busca da autossuficiência.
Partindo de uma exegese literária, o autor descortina a angústia do jesuíta náufrago atirado de um navio, cuja existência se encontra suspensa em um equilíbrio tênue: atado a um fragmento de madeira, ele flutua sobre a voragem das águas enquanto contempla a infinitude do firmamento.
Neste cenário, três elementos ganham destaque: o navio (as estruturas do mundo, o positivismo e as certezas humanas onde o homem “curvado sobre si” se sentia seguro), a tempestade (irrupção da realidade que a autonomia moderna tentou ignorar) e o Mar (o abismo do nada, a dúvida niilista que ameaça devorar o sentido da vida).
É nessa condição de radical vulnerabilidade que o teólogo Ratzinger fundamenta a sua tese, asseverando, por fim:
“Atado à cruz, mas a cruz não está presa a nada e está flutuando sobre o abismo… Uma trave solta o liga a Deus; mas ela o liga de maneira definitiva.”
Diferentemente do homem moderno que se esgota tentando nadar contra a correnteza de seus apetites, o fiel aceita ser amarrado. A trave do navio soçobrado, que para o mundo é um resto de destruição, transfigura-se na cruz.
Aqui, o Bom Pastor exerce seu múnus não por meio de pastos verdejantes, mas pela imposição de um limite salvífico: os mandamentos que antes pareciam “difíceis” tornam-se as cordas que impedem o náufrago de ser tragado pelo abismo.
De “Terra” a “Céu”: A Metanoia Necessária
O fundador da Comunidade Shalom, Moysés Azevedo, trouxe recentemente um alerta antropológico urgente: a recusa a viver a vontade do Pai, tornamo-nos “terra”. A modernidade é esse acúmulo de poeira — materialismo, busca por status e imanência — que nos torna pesados e sem horizonte de eternidade. Assim, por causa do pecado e do egoísmo estimulado pela cultura atual, passamos a ver o “sim” a Deus como uma ameaça à nossa liberdade, quando, na verdade, é a nossa única chance de sermos “Céu”.
Enquanto a cultura atual nos exila em um deserto de telas, sedentarismo e consumo desenfreado, transformando-nos em “terra” sob o peso do estresse, o Bom Pastor nos conduz ao “sacramento do lava-pés“, dando a coragem de trocar a mediocridade do “eu soberano” pela sinergia com a Vontade do Pai.
O Bom Pastor: A Reintegração do Ser por meio da obediência
Em um mundo que se vangloria de sua potência tecnológica, mas que padece de uma profunda anemia espiritual, o convite de Jesus — “Eu sou o Bom Pastor e conheço as minhas ovelhas” (Jo, 10, 14) — torna-se o remédio urgente para as nossas fadigas e desânimos.
A distinção teológica entre o Pastor e o Mercenário repousa na natureza do compromisso. Como assevera São Tomás de Aquino em seus comentários ao Evangelho de São João, Cristo é a Porta por direito próprio, mas comunicou aos Seus membros o ofício de Pastor. Ninguém exerce o bom pastoreio se não for, pela caridade, um só com Ele.
O texto sagrado, em Ezequiel 34,2, promulga um libelo contra os “pastores de Israel” que se alimentam a si mesmos. Aqui, o delito é a prevaricação: o líder que utiliza o cargo para o usufruto próprio, em vez de cumprir o dever de apascentar. Em contraste, o Salmista evoca a providência divina como o padrão ouro da governança: “O Senhor é meu pastor; nada me falta” (Salmos 23,1). A autoridade do Pastor não advém do domínio, mas da integridade do coração e da habilidade das mãos, virtudes que Deus encontrou em Davi ao retirá-lo dos currais para torná-lo o herói arquetípico que confronta o gigante Golias.
No novo Testamento, Cristo se apresenta como Bom Pastor e, ainda, como ‘A porta’. São Tomás de Aquino[2] estabelece a distinção metafísica entre o Pastor e a Porta:
“Cristo disse que o pastor entra pela porta e que ele é a porta. Aqui diz ser o pastor. É preciso então que ele entre por si mesmo. Entra na verdade por si mesmo porque se manifesta a si e por si mesmo conhece o Pai. Nós, porém, entramos por ele, porque por ele somos cumulados da bem-aventurança. Contudo, atenta em que nenhum outro exceto ele é a porta, porque nenhum outro é a luz verdadeira, mas apenas por participação. […] Por esse motivo, ninguém diz será porta; é propriedade exclusiva de Cristo. Quanto ao seu pastor, comunicou-o a outros e deu a seus membros. […] Ninguém é bom pastor se não se torna pela caridade um só com Cristo e membro do verdadeiro pastor.”
Para superar a anemia espiritual do nosso tempo, precisamos daquilo que podemos chamar de rebelião do silêncio, o qual se traduz em:
- Serviço como Caridade: A autoridade cristã não esmaga; ela eleva o olhar da ovelha para o Alto.
- Missão como Cura: O envio de Cristo nos retira da depressão existencial. Quem possui uma missão não tem espaço para o tédio paralisante. Sair de si é o início da convalescença.
Conclusão: O Ardor que Queima a Melancolia
Na visão de Moysés Azevedo, a evangelização não é um setor administrativo, mas nossa identidade vital. O estado de missão é o antídoto para o envelhecimento da alma. Quando abrimos o coração e os recursos para o Reino, o jugo de Cristo torna-se leve, e o peso do mundo se dissipa.
Em um mundo de ruído ensurdecedor, a saúde plena — do corpo, da mente e do espírito — só é encontrada quando reconhecemos a Voz. Aceitar o pastoreio Daquele que deu a vida é a única via para que tenhamos, enfim, vida em abundância.
Paulo César Gomes Albuquerque
Instituto Parresia – Setor Comunicação
[1] RATZINGER, Joseph. Introdução ao cristianismo: preleções sobre o Símbolo Apostólico. Tradução de Alfred J. Keller. 8. ed. São Paulo: Loyola, 2015.
[2] AQUINO, Tomás de. Comentário ao Evangelho de São João. 1. ed. Rio de Janeiro: Edições Cristo Rei, 2015. (Coleção Biblioteca de Filosofia e Teologia Medieval).
Vem aí: Curso “Direção Espiritual“ 🧭
Sabe aquele sentimento de estar perdido no próprio deserto? Estamos preparando um mapa. O novo curso de Direção Espiritual está saindo do forno para te ajudar a baixar o volume do ego e finalmente ouvir a voz que importa. É o “GPS” que faltava para a sua vida interior.
Enquanto isso, não fique parado!
Para quem quer começar a faxina espiritual agora, temos dois caminhos prontos:
-
Acídia, vencendo o demonio do meio-dia: Descubra por que você se sente “cansado de tudo” e como vencer esse desânimo que é, na verdade, um peso na alma.
-
Viver para mim é Cristo – São Paulo e suas cartas: Quer fogo no coração? Venha ver como Paulo transformou o mundo com um vigor que não vem deste mundo.
Assine a Plataforma: É o seu ingresso para começar a viver com profundidade.
Sobre o Instituto Parresia
Siga o perfil no Instagram
Conheça a nossa Plataforma de Cursos Online no Site
Ouça os Podcasts no Spotify
Aulas gratuitas no Youtube
Entre em nosso canal do Telegram
E-mail: institutoparresia@comshalom.org

