A cada ano litúrgico que se inicia, inaugura-se também uma nova oportunidade de fazermos algo diferente. Assim como o início do ano civil nos convida a escolher metas pessoais e profissionais que nos conduzam a novas experiências, o ano litúrgico nos impulsiona a buscar um caminho de santidade cada vez mais concreto e profundo.
Embora, para nós, cristãos, o ano comece com o Advento, é na Quaresma que vivemos um profundo silêncio e um mergulho em nossa própria humanidade, para que possamos experimentar o tempo pascal com a verdadeira alegria da Ressurreição.
Um chamado que vai além do óbvio
Como Igreja, somos chamados à esmola, ao jejum e à oração. No entanto, Deus também nos convida a sair do óbvio e a buscar novas formas de penitenciar o ser humano que somos hoje.
Ele tem um propósito para cada um de nós; precisamos apenas estar atentos ao que Ele nos propõe.
Uma Quaresma concreta
Sabiamente, Deus me fez viver esta Quaresma na reta final de preparação para o meu casamento.
Desde o começo do tempo quaresmal, tenho buscado a oração como forma de me unir a Cristo, procurando viver cada desafio em um silêncio de contemplação e com um olhar de esperança para aquilo que virá.
Algumas penitências também se fizeram necessárias neste tempo.
Uma delas foi a redução do uso das redes sociais. Mesmo utilizando-as como forma de evangelização e de partilha dessa etapa da minha vida, percebi que precisava me abster dos primeiros 30 minutos do meu dia, como forma de mergulhar na oração e contemplar melhor os acontecimentos que Deus preparava para mim.
Quando o deserto chega
Faltando exatamente uma semana para o meu casamento, acordei às 3h da madrugada com fortes dores na região abdominal.
Surpreendeu-me a intensidade da dor.
Às 4h, chamei minha mãe e disse o que sentia. Ela, preocupada por estar próximo do casamento, decidiu me levar rapidamente ao hospital.
Após uma manhã de espera e exames: crise de pedra na vesícula.
O médico ofereceu a cirurgia, mas, como eu me casaria em uma semana, optei pelo tratamento medicamentoso, repouso e muita oração.
A travessia
Dois dias depois, a avó do meu noivo foi internada e levada para a UTI.
Começou, então, um tempo de trevas.
Sabia que o sacramento do matrimônio seria a ressurreição, mas o deserto que nos levaria até lá veio de forma rápida e muito próxima.
A cada dia, nossa oração era de entrega e confiança de que Deus não nos deixaria faltar nada no grande dia.
A ressurreição
Gostaria de pontuar o dia do matrimônio com uma fala da minha cerimonialista:
“Deus sabia tanto do coração de vocês que não importava a chuva no dia, que Ele enviou os raios mais iluminados para irradiar o dia, mostrando a força d’Ele!”
Foi lindo.
Veio a ressurreição em nossas vidas.
Permanecer no mistério
Contudo, Deus tem nos chamado a viver este tempo encarnados no deserto.
Seguimos para uma Semana Santa confiantes em sua obra, mesmo em meio a uma enfermidade sem explicação ou sentido para os olhos humanos.
Deus deseja rasgar nossas vestes neste tempo — e, quem sabe, as suas também.
Por Gabriella Farias,
Shalom, Comunidade de Aliança – Missão Fortaleza
