Em meio a mais uma noite escura, sem nada pescar, João — o discípulo amado —, ao contemplar os sinais do Ressuscitado, que o fizera pescar cento e cinquenta e três grandes peixes ao amanhecer, exclama com alegria:
“É o Senhor!” (Jo 21,7).
O coração que reconhece
Como nos ensinam os Padres da Igreja, somente um coração que muito ama é capaz de reconhecer prontamente a voz do Amado.
Santo Agostinho dizia:
“Ama e faze o que quiseres”,
pois quem ama verdadeiramente não se engana ao reconhecer Aquele que é o Amor.
João, antes dos outros discípulos, percebe o Ressuscitado que vem ao seu encontro, trazendo a esperança de um novo dia.
É muito belo contemplar nele esse coração amigo, íntimo de Jesus: um coração que tem sede de presença, que anseia contemplar o Amado, que se deixa amar profundamente e, por isso, torna-se capaz de amá-Lo em tudo e em todos.
Deixar-se amar e, então, permanecer
O discípulo sabia que podia reclinar a cabeça no peito do Mestre e não hesitou em fazê-lo (cf. Jo 13,25).
Com um gesto de confiança, ele se entrega, escuta as batidas do Seu coração e, assim, deixa-se amar profundamente.
Como dizia São João Paulo II:
“O homem não pode viver sem amor; ele permanece para si mesmo um ser incompreensível, se não encontra o amor.”
Esse ato de deixar-se amar é o que o faz permanecer unido a Cristo diante do sofrimento. Enquanto todos os discípulos fugiram da cruz, ele escolheu permanecer. Ao lado de Maria, ficou até o fim (cf. Jo 19,25-27). Desse modo, João uniu-se ainda mais ao seu Mestre, e o coração que outrora ouvira pulsar de amor, lá no Calvário viu jorrar a vida, a misericórdia e a bondade do Senhor sobre toda a terra.
No lado aberto de Jesus (cf. Jo 19,34), João viu suas próprias feridas serem transformadas em chagas gloriosas
Aquilo que era morte tornou-se vida; aquilo que era trevas, agora era luz. As feridas purulentas tornaram-se chagas gloriosas.
Como afirma Santa Catarina de Sena:
“No lado aberto de Cristo encontramos o segredo do seu coração.”
Por isso, arde em seu coração a necessidade de dar testemunho daquilo que viu e experimentou.
Como cristãos, precisamos pedir a Deus essa mesma graça do discípulo amado: permitir que a ferida do lado aberto de Jesus transforme todas as nossas chagas em marcas gloriosas, pois até as feridas mais profundas Ele pode transfigurar.
Como recorda o Papa Francisco:
“Não há condição humana que não possa ser restaurada pelo amor de Deus.”
Ele vive
A morte não tem a vitória, porque Cristo ressuscitou. Aleluia!
Com João, aprendemos ainda que não precisamos de muito para crer. Ao chegar ao túmulo de Jesus e ver que o corpo não estava lá,
“ele viu e creu” (Jo 20,8).
Ali, o seu coração tinha a certeza de que o seu Rei havia ressuscitado. Que alegria, que felicidade: a morte não venceu — Ele vive! Cristo vive!
Nada pode nos separar do amor de Deus (cf. Rm 8,39).
Então, mesmo que venham sobre nós muitos vendavais da vida, que as trevas da noite nos envolvam, repousemos na esperança de um novo dia.
Pois Cristo vive.
É o Senhor Ressuscitado que, a cada amanhecer, vem nos trazer a sua paz e a sua luz.
“É o Senhor!”