Formação

Para sermos salvos: contemplar o Amor traspassado

E, diante do lenho da Cruz, só nos resta uma coisa: Adorar.

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Foto de Josh Applegate na Unsplash

No coração da Sexta-Feira Santa, a Igreja não explica: contempla. Não argumenta: adora. Coloca-se em silêncio diante do mistério central da nossa fé: o Filho entregue.

“Assim como muitos ficaram espantados ao vê-lo… tão desfigurado estava o seu rosto” (Is 52,14).

O Servo não tem aparência humana. Não há beleza, não há glória visível, não há sucesso. A liturgia nos conduz ao extremo da miséria humana: desfiguramos o Amado.

Não foi um acidente histórico. Foi a revelação do que o pecado produz quando se encontra com o Amor.

O Amor que se entrega

A Paixão segundo São João não destaca o caos, mas a soberania de Cristo. Ele não é vítima passiva. Ele se entrega. É o Cordeiro que carrega nossas culpas.

Flagelado (Jo 19,1), coroado de espinhos, elevado na cruz, permanece de pé na obediência. Não responde com violência. Não negocia sua identidade. Ama até o extremo (Jo 13,1).

Tratamo-lo como abandonado por Deus. Zombaram dele:

“Que o Senhor o livre” (cf. Sl 22).

Está entre ladrões (Lc 23,33). Está só. E, no entanto, nessa solidão, realiza-se a salvação do mundo.

A cruz não é fracasso

A Sexta-Feira Santa não é a derrota de Cristo; é a manifestação suprema de sua obediência.

Como proclama a Carta aos Hebreus:

Aprendeu, sofrendo, a obedecer e tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem (cf. Hb 5,8-9).

A cruz não é fracasso. É fidelidade levada até o fim.

A sede do Amor

“Tenho sede” (Jo 19,28).

Não é apenas uma necessidade física. É a sede do Amor que busca resposta. Sede de comunhão. Sede de almas. Sede de que o coração humano volte para casa.

E depois:

“Tudo está consumado” (Jo 19,30).

Não é um grito de resignação. É a proclamação de uma missão cumprida até o extremo. O amor não recuou. O amor não se defendeu. O amor permaneceu.

Do lado aberto nasce a vida

Nesse momento, o véu do templo se rasga. O lado é aberto (Jo 19,34).

E do lado nasce a Igreja. Nascem os sacramentos. Nasce a possibilidade de uma humanidade nova.

O sangue e a água não são apenas sinais físicos; são o transbordamento de um Amor que não se reservou nada.

“Eis o lenho da Cruz, do qual pendeu a salvação do mundo.”

Não olhamos uma tragédia. Contemplamos o lugar onde o Amor venceu permanecendo.

A cruz revela quem somos

Aqui também se revela a nossa verdade.

Pedro negou. Judas entregou. Os discípulos fugiram. E nós, em nossa história concreta, reconhecemos a mesma fragilidade.

Também nós negociamos. Também nós fugimos do sofrimento. Também nós queremos glória sem cruz.

Mas a Sexta-Feira Santa não é um dia de culpa estéril. É um dia de verdade.

Onde abundou o pecado, superabundou a graça (cf. Rm 5,20).

As chagas que salvam

As chagas de Cristo não são apagadas. O Ressuscitado as conservará. Isso significa que o amor levado até o extremo não se perde.

As chagas não são sinal de fracasso; são memória eterna da entrega. São a caligrafia do Amor.

Nossa vida também é marcada por feridas: fracassos, traições, limites, incoerências.

A Sexta-Feira Santa nos ensina que as feridas, unidas às de Cristo, podem tornar-se lugar de redenção. Não são glorificadas por si mesmas; são purificadas no Amor.

Um chamado à decisão

Como cristãos, somos chamados a contemplar desde dentro, não como espectadores externos.

Não olhamos a cruz de longe. Deixamo-nos olhar pelo Crucificado.

E, nesse olhar, descobrimos nossa identidade mais profunda: filhos amados.

A obediência de Cristo até a morte questiona nossas meias entregas.

Como estamos vivendo o essencial?

Pobreza, castidade e obediência não são votos funcionais; são participação concreta na lógica da Cruz. São configuração com o Servo.

A lógica do dom

A Sexta-Feira Santa nos coloca diante de uma escolha: permanecer na autossuficiência ou entrar na lógica do dom.

O mundo propõe sucesso sem feridas. Cristo propõe amor que se entrega.

O mundo promete vitória visível. A Cruz oferece fidelidade invisível.

Não existe discipulado sem separação interior.

“Tomar a cruz cada dia” (Lc 9,23)

não é buscar sofrimento, mas permanecer fiel quando amar custa.

O grande silêncio

Do lado aberto nasce uma comunidade nova: não de perfeitos, mas de redimidos; não de fortes, mas de reconciliados.

A Igreja nasce ferida e glorificada em seu Esposo.

No grande silêncio da Sexta-Feira Santa, aprendemos que a salvação não acontece pela força nem pelo mérito, mas pela entrega.

Cristo não salvou impondo-se, mas oferecendo-se.

A última palavra

Por isso adoramos a Cruz.

Porque ali compreendemos que não estamos abandonados.

“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34)

não é desespero, mas oração levada até o extremo da noite. Mesmo no silêncio do Pai, o Filho permanece.

E essa permanência é a nossa esperança.

Não antecipamos a Páscoa. Ainda não cantamos o Aleluia. Permanecemos no silêncio. Mas é um silêncio cheio de sentido.

Sabemos:

O pecado não tem a última palavra.
A violência não tem a última palavra.
A morte não tem a última palavra.

A última palavra é obediência.
A última palavra é entrega.
A última palavra é Amor.

E, diante do lenho da Cruz, só nos resta uma coisa:

Adorar.

Por Noor Gonzalez
Shalom, Comunidade vida – Missão Panamá


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