O Filho amado será oferecido. Nesta santa semana tudo fala, cada gesto, cada palavra… tudo está carregado de significado e de um amor imenso que muda toda a atmosfera. Cada dia dessa Semana Santa nos faz acompanhar os passos de Cristo nos últimos momentos da sua vida terrena. Mais do que uma sequência de rituais, nessa semana somos mergulhados no mistério de Cristo, na sua paixão, morte e ressurreição. Este é o mistério central da nossa fé, todo o ano litúrgico deriva das celebrações do Tríduo Pascal (o ápice da Semana Santa), e o coração de cada fiel espera ansioso por viver esses momentos, porque toda piedade encontra seu sentido em cada um dos seus atos litúrgicos. Se Cristo não tivesse ressuscitado nossa fé seria vã. (cf. 1Cor 15,13).
Esta semana é diferente de todas as outras porque se antes éramos escravos do pecado e prisioneiros da morte eterna, agora seremos, em Cristo, livres, uma nova criação realizada a partir da sua cruz e ressurreição. Nesses dias se cumpre aquela “hora” que o Senhor mesmo havia falado tantas vezes… Uma hora cheia do poder do Espírito Santo. As profecias se cumprem, é o último combate, a promissória da dívida finalmente será rasgada (1Cor 6,20; Cl 2,14) e no lado trespassado todos terão acesso ao Pai.

(Sexta-feira Santa de 2004)
Antes de lançarmos um olhar sobre o Tríduo Pascal, gostaria de esclarecer uma coisa: É muito comum pensarmos no Tríduo como a ordem comum dos dias em que se realizam as celebrações, ou seja: Quinta, Sexta e a Vigília do Sábado Santo com o Domingo que lhe segue. No entanto, durante esses dias tão especiais, até mesmo a lógica dos dias é mudada pelo mistério. A Páscoa do Senhor é celebrada em três dias: A Sexta-Feira Santa celebra a paixão; o Sábado Santo, a sepultura; o Domingo, a ressurreição. “Cada dia do tríduo relembra o outro e abre-se sobre o outro como a ideia da ressurreição supõe a da morte.”
As normas universais sobre o ano litúrgico afirmam: “O Tríduo Pascal da paixão e da ressurreição do Senhor inicia-se com a missa na Ceia do Senhor, tem o seu fulcro na Vigília Pascal e termina com as Vésperas do domingo de Ressurreição.” Desta forma podemos entender que a Quinta-Feira Santa não faz parte do Tríduo, sendo ela “o último dia antes da Páscoa”. O modo como esses dias transcorrem lembram-nos os dias solenes judaicos, que começavam na tarde do dia anterior. Para um judeu ao cair da tarde já é o dia seguinte. Assim, ao celebrarmos as vésperas da Quinta, já entramos na Sexta-Feira Santa, que compreende então duas celebrações: a de Quinta à noite, a da Ceia do Senhor e a da Sexta-Feira Santa com os seus atos próprios.
A Missa da Ceia do Senhor
A Missa da Ceia do Senhor (In cena Domini), celebração faz memória da última ceia, na qual Jesus instituiu a Eucaristia, o sacerdócio e nos dá um novo mandamento: o do Seu Amor (cf. Jo 13,34-35). Nestes momentos últimos e decisivos Ele nos leva para dentro do cenáculo, uma última reunião, desejada por Ele ardentemente (cf. Lc 22,15), estando ali só com os seus apóstolos e nós estamos em meio a eles, Jesus abre o coração, diz palavras não ditas antes, fala do Pai, de céu e de eternidade (cf. Jo 13-17).
A Liturgia da Palavra desta celebração nos apresenta o rito pascal do Antigo e do Novo Testamento, tendo no centro a ceia celebrada por Jesus com os discípulos. Após a homilia começa o rito do lava-pés, exercido não como um teatro, mas como uma realidade palpável a imagem imanente do Seu amor pronto para enfrentar a morte. “Deus desce e torna-se escravo, lava-nos os pés para que possamos estar na sua mesa.”. “Se compreenderdes isso e o praticardes, felizes sereis” (Jo 13,17).

Nesta Missa se vai com Jesus da sala do banquete ao Monte das Oliveiras (cf. Lc 22,39). Após a comunhão, as sagradas espécies são recolhidas e conduzidas solenemente para um lugar preparado, a fim de serem adoradas e conservadas para a comunhão na Sexta-feira Santa. Um gesto cheio de significado é que à medida que sai a procissão trasladando o Santíssimo Sacramento, a Igreja muda, a toalha do altar é retirada, assim como as flores, as velas, as imagens são cobertas, e as luzes apagadas… É noite! O Senhor diz: “Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai comigo.” (Mt 26,38).
Esta noite é de maneira especial consagrada à lembrança da Eucaristia. A Igreja como sinal da adoração sublinha o aspecto da presença do Senhor nas espécies eucarísticas. A adoração promovida na capela preparada para este fim, termina antes da meia-noite, respeitando o significado próprio das celebrações destes dias. Agora a lembrança da Eucaristia é substituída pela traição, prisão, da paixão e da morte de Cristo.
Primeiro dia do Tríduo – A Sexta-Feira Santa
O dia da “Paixão do Senhor”, não é um dia de pranto, mas de uma contemplação cheia de amor do sacrifício de Jesus. A Igreja não está celebrando um funeral, mas a morte vitoriosa do Senhor. Uma antiquíssima tradição recorda que neste dia a Igreja não celebra a Eucaristia. Os fiéis são alimentados fundamentalmente da liturgia deste dia com a Palavra de Deus, embora se distribua as Sagradas Espécies guardadas do dia anterior. O ato litúrgico deve ser celebrado às três horas da tarde, a hora em que Jesus morre na cruz, entregando o espírito, mas razões pastorais poderão fazer com que ela seja celebrada mais tarde, porém não depois do pôr do sol.
A liturgia desta celebração é constituída de três partes: Liturgia da Palavra, Adoração da Cruz e a Comunhão.
A primeira parte do rito conserva uma antiquíssima forma de se ouvir e meditar a Palavra. Logo após a prostração na entrada do(s) celebrante(s) e uma breve oração, procede-se imediatamente às Leituras. Não há os ritos iniciais de uma celebração comum, bem como não há Bênção Final e despedida na Quinta-Feira Santa. Estamos numa continuidade da celebração pascal. Diante de todos, uma procissão silenciosa entra na igreja e se prostra exatamente na hora em que o véu do templo se rasgou de alto a baixo (cf. Mt 27,51). Não há música nem instrumentos, exceto aqueles que ajudam a acompanhar o canto. Após a prostração, a voz do presidente da celebração rompe o silêncio e reza a oração. Todo o povo então, é posto à escuta da Palavra.
As leituras deste dia trazem o quarto Canto do Servo do Senhor (cf. Is 52,13–53,12), com impressionantes descrições de parte do sofrimento que Cristo Jesus passaria na Sua paixão. A resposta da Igreja é o Salmo 30, uma vez que na Cruz o Senhor pronunciou o versículo seis deste mesmo Salmo: “Então Jesus deu um forte grito: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. Dizendo isso, expirou.” (Lc 23,46). Na verdade, escolhendo este Salmo para a resposta da assembleia à Primeira Leitura, a Igreja está atribuindo a Cristo toda esta oração de Davi. O texto da Carta aos Hebreus escolhido para a Segunda Leitura, apresenta Jesus não somente como o “Servo do Senhor”, mas como o “sumo sacerdote” que se compadece das nossas fraquezas (cf. Hb 4,15). Para a Sexta-Feira Santa é reservada a leitura da narrativa da Paixão do Senhor segundo João, que revela a cruz como o sinal extremo do amor do Pai.
Após a (breve) homilia, tem início a solene oração dos fiéis, concluindo a liturgia da Palavra. A assembleia iluminada pela Palavra de Deus, abre-se à caridade, apresentando diante da Cruz toda a humanidade. A Igreja da qual Cristo é o único Sumo e eterno Sacerdote nesta oração solene reza:
1) pela santa Igreja;
2) pelo Papa;
3) por todos os membros da Igreja;
4) pelos catecúmenos;
5) pela unidade dos cristãos;
6) pelos judeus;
7) pelos que não creem em Cristo;
8) pelos que não creem em Deus;
9) pelos governantes;
10) por todos os que sofrem.
A Adoração da Cruz – Agora teria início a liturgia eucarística, com a preparação das ofertas, mas como a Igreja neste dia não a celebra, toda a atenção estará voltada na contemplação do sacrifício cruento de Cristo. Este é um motivo pelo qual neste dia não celebramos a Eucaristia, mas fazemos a apresentação e a adoração da Cruz. Este rito é quase uma resposta à recente proclamação do Evangelho da paixão. A Igreja ergue o sinal da vitória de Cristo, que atrai todos a si (cf. Jo 12,32). Esse rito é um glorioso e triunfante anúncio da vitória da cruz. “Eis o lenho da Cruz, do qual pendeu a salvação do mundo”. Proclamará o sacerdote. “Vinde, adoremos”. responderá a assembleia que se prostra em adoração. Seguem-se vários cantos (opcionais) enquanto os fiéis são convidados à adoração da Cruz.
A Comunhão – A Cruz foi colocada no altar, sinal do sacerdócio e do sacrifício de Cristo, as reservas da Missa da Ceia do Senhor são trazidas e o povo pode comungar do Cristo que se oferece por nós em sacrifício ao Pai. Esta solene Liturgia é concluída com uma oração sobre o povo. A assembleia retorna então ao silêncio expectante, ao lado do sepulcro e de Maria, a Mãe do Senhor.
A piedade popular, especialmente aqui no Brasil, nas noites da Sexta-Feira da Paixão do Senhor oferece um sem número de práticas de devoção para se viver esses dias: procissões, sermões e cerimônias, que ajudam a mergulhar em todo o segredo desta noite.
Segundo dia do Tríduo – Sábado Santo (manhã)
Como num desdobrar-se de um dia sobre o outro, assim são os dias do Tríduo Pascal. Entramos no grande dia do Sábado Santo. Nele, a Igreja permanece junto do sepulcro do Senhor, meditando na sua Paixão e Morte, assim como na sua descida à mansão dos mortos (cf. 1Pd 3,19), esperando a sua ressurreição, em oração, até a Solene Vigília Pascal.
O Ofício das Leituras (da Liturgia das Horas) deste dia apresenta um texto de um autor desconhecido do século IV, mas que orienta bem a sua espiritualidade. Não é a morte que vence, mas a luz brilha mais forte e a Palavra de Cristo se faz presente para indicar a sua gloriosa ressurreição. Todo o Ofício divino deste dia nos convida a olhar para o alto e esperar ansiosamente a ressurreição do Senhor.
Terceiro dia do Tríduo – Vigília Pascal e o Domingo
Há dias que terminam em noites, mas há uma noite que dá início a um dia que se prolonga por sete dias (a Oitava Pascal). Poucas celebrações litúrgicas são tão ricas de conteúdo e de simbolismo como é a Vigília Pascal, através dela se entra no coração do Tríduo Pascal. Nesta noite Santa a Igreja celebra sacramentalmente, a obra da redenção e da perfeita glorificação de Deus e de seu Filho Jesus Cristo, tornado para nós um novo Adão, ao pagar nossa culpa se entregando à Morte e morte de Cruz (cf. Fl 2,8).
Para compreender melhor o significado e valor desta Vigília, é necessário mergulhar na antiquíssima Tradição da Igreja que nos recorda que esta noite é “uma vigília em honra do Senhor” (Ex 12,42). Os fiéis trazendo consigo lâmpadas acesas assemelham-se àqueles que esperam o Senhor no seu retorno, para que quando Ele chegar os encontre ainda vigilantes e os faça sentar à sua mesa (cf. Lc 12,35-40). O Missal Romano recorda que: “A Vigília desta noite, que é a mais sublime e nobre de todas as Solenidades”, de forma a ser única em cada Igreja.
A Solene Vigília Pascal, tem origem na primeira Páscoa, a noite em que do Egito o Senhor retirou os filhos de Israel, transpondo o Mar Vermelho a pé enxuto rumo à terra prometida, onde corre leite e mel (cf. Ex 3,8). O povo da Antiga Aliança durante esta vigília celebravam o rito pascal, fazendo memória da salvação realizada por Deus nos acontecimentos do êxodo. “Este dia será para vós uma festa memorável em honra do Senhor, que haveis de celebrar por todas as gerações, como instituição perpétua’” (Ex 12,14). A celebração pascal do povo de Israel tinha o caráter de memória-presença-expectativa, uma vez que os hebreus esperavam o cumprimento das promessas de Deus, de levá-los à terra prometida e enviar o Messias, o Salvador definitivo.
“Na Páscoa Cristã, a estrutura teológica da Vigília Pascal (memória-presença-expectativa) não muda, mas se enriquece com a realidade que é Cristo”, o Ressuscitado que passou pela Cruz. Canta-se então o precônio pascal: “Ó noite em que Jesus rompeu o inferno, ao ressurgir da morte vencedor.” De fato, esta é a grande noite, nela somos feitos livres de todo o pecado que nos trouxe a morte, graças a um tão grande Redentor, que em si mesmo destruiu o pecado e rompeu o inferno. Nesta noite em que a coluna luminosa dissipa toda a treva e congrega um povo novo, fruto da obra do Ressuscitado, celebramos como já dizia Santo Agostinho: “a mãe de todas as vigílias!”
O Lucernário – A primeira parte da Vigília celebra a luz, Cristo, que de um modo particular com a sua ressurreição é a luz do mundo (cf Jo 1,9). Cada um de nós que tomamos parte nos sacramentos somos constituídos “luz do Senhor” (cf. Ef 5,8). Este rito inicial compreende: a bênção do fogo, a preparação do Círio, a procissão e o anúncio pascal.
A Liturgia da Palavra – Depois que o Círio Pascal aceso, sinal do Ressuscitado, entra na Igreja e sua luz brilha no meio da escuridão, proclama-se, o solene: “Eis a luz de Cristo (3x)” e todos respondem: “Demos graças a Deus”, e depois a proclamação da Páscoa, e tem início a Liturgia da Palavra. A Igreja medita nas obras maravilhosas que Deus realizou em favor de seu povo que confiava em sua palavra e suas promessas. Nesta noite, cumpriram-se em Jesus Cristo morto e Ressuscitado as grandes obras de Deus, anunciadas nas intervenções do Antigo Testamento.
O símbolo do Círio dá lugar agora, à realidade de Cristo, presente em sua Palavra. Começando por Moisés e todos os profetas, a Igreja interpreta o mistério Pascal de Cristo. Para esta celebração são propostas nove leituras (em alguns lugares, por questões pastorais, não são lidas todas elas), sete do Antigo Testamento e duas do Novo, sendo elas uma das Cartas de São Paulo e outra do Evangelho. intercaladas por um Salmo e uma oração (sete do Antigo Testamento e duas do Novo,). As leituras do Antigo Testamento e a Carta, tem um Salmo cantado e uma oração, após cada uma, significando que a Palavra deve ser meditada e rezada. Terminadas as leituras do Antigo Testamento, canta-se solenemente o Glória e pronuncia-se a oração coleta, em seguida lêem-se as leituras do Novo Testamento.
Neste dia a Igreja volta a cantar o Aleluia, que é entoado solenemente pelo presidente (três vezes, subindo gradualmente o tom) e repetido pelo povo.
A Liturgia Batismal – Segundo a Tradição, nesta noite os catecúmenos recebiam, após uma intensa preparação, o Sacramento do Batismo e eram, de fato, admitidos à fé da Igreja. O Batismo nos torna um com Cristo, nos insere em seu Corpo. Pela graça deste Sacramento, somos sepultados e ressuscitamos com o Senhor. Além dos catecúmenos, toda a assembleia renova as suas promessas batismais, “banhando-se” nas águas que correm, desta fonte inesgotável de vida que é o Ressuscitado.
Liturgia Eucarística – Entramos no coração da Vigília, nesta noite santa rendemos a Deus um sacrifício de louvor, por seu Filho Jesus Cristo, dado a nós para a nossa salvação. Odo Casel ensina: “A Páscoa é o momento em que teve início a verdadeira eucaristia. Por isso, o mistério da noite pascal também concentra-se sobre a eucaristia, que Cristo não apresenta mais sozinho, mas juntamente com a sua Igreja. Esta participa da eucaristia, que inaugura a grande solenidade, na qual a Igreja redimida, da ininterruptamente graças ao Pai junto com o Filho”. A Eucaristia é de fato o Sacramento do Ressuscitado, por ela o Senhor realiza a sua promessa de estar sempre conosco até o fim. Os catecúmenos que receberam o Batismo, recebem pela primeira vez a Eucaristia e em alguns lugares são crismados, completando os três Sacramentos da Iniciação cristã, Batismo, Eucaristia e Crisma.
Como dissemos antes, há dias que terminam em noites, mas nesta noite inicia-se um dia, sinal daquele dia sem ocaso, que jamais findará. Hoje temos a presença sacramental do Ressuscitado na Eucaristia e os sinais da sua presença nos sacramentais que acompanham o período pascal. Tudo isso, é uma recordação de que haverá um dia, de uma luz sem ocaso, que não findará jamais em que estaremos diante do Ressuscitado, celebrando para sempre os seus louvores.
Um santo Tríduo Pascal!
Retiro de Semana Santa
A Semana Santa, período mais importante do ano litúrgico, é reservada para o mergulho na fé católica. Esse é o momento em que a Igreja celebra a paixão, a morte e a ressurreição de Cristo em recolhimento, oração e fé. Com o objetivo de favorecer um maior proveito espiritual dos fiéis, todos os anos a Comunidade Católica Shalom promove o já tradicional Retiro de Semana Santa.
O evento acontecerá em mais de quarenta cidades do Brasil e em quase dez do exterior, e terá como tema: “Por Cristo, Com Cristo e Em Cristo”. Mas também será possível participar do Retiro de forma remota. A programação online contará com a participação de: Moysés Azevedo, Emmir Nogueira, Pe. Saulo Dantas e Daniel Ramos.
Para acompanhar a transmissão do Retiro de Semana Santa Shalom é necessário realizar a inscrição. Após o cadastro, o participante recebe acesso à transmissão e pode seguir toda a programação remotamente.
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