No segundo domingo da Páscoa, celebramos a Festa da Divina Misericórdia. O Evangelho de João (Jo 20,19-31) nos apresenta duas aparições do Ressuscitado: uma no próprio dia da Ressurreição e outra, oito dias depois, para resgatar a fé de Tomé e dos discípulos até o fim dos tempos. É um convite a mergulhar no mistério de um Deus que atravessa as portas fechadas do nosso medo para nos oferecer a Paz e a Sua infinita misericórdia.
Para ajudar você a rezar com esta Palavra, destacamos os cinco pontos centrais da nossa reflexão no podcast.
- O primeiro e o oitavo dia: A Nova Criação
O texto enfatiza que Jesus aparece “ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana” (Jo 20,19) e, mais na frente, diz: “oito dias depois…” (Jo 20,26). O primeiro dia nos remete ao Gênesis (“Faça-se a luz“), pois a Luz da Ressurreição de Jesus (Cf. Jo 1,4-5.9-10) resplandece nas trevas surgindo uma Nova Criação. O oitavo dia é o “dia que não conhece ocaso” (Cf. CIC §1166), o domingo eterno. Cada domingo que vivemos não é apenas um dia “após” a Páscoa, mas é o próprio Domingo da Páscoa que se estende, onde somos “misericordiados” para nos tornarmos também agentes de misericórdia.
- “Vimos o Senhor!“: O testemunho comunitário
Os dez apóstolos que viram Jesus primeiro não guardaram a experiência para si; eles buscaram Tomé e testemunharam: “Vimos o Senhor!” (Jo 20,25). Este ponto ressalta a importância da fé vivida em comunidade. Tomé estava fora e, por isso, inicialmente, não acreditou. A comunidade não o excluiu por sua dúvida, mas insistiu no testemunho e o manteve por perto. Há experiências com Deus que só acontecem quando estamos reunidos em Seu nome.
- Tomé, o gêmeo: O nosso reflexo
O evangelista chama Tomé de “Dídimo” (Jo 20,24), que significa gêmeo. O texto nos provoca a pensar: gêmeo de quem? Muitas vezes, nós somos esses “irmãos gêmeos” de Tomé. Como ele, nós nos afastamos da comunidade, demoramos a crer no testemunho da Igreja e exigimos provas sensíveis para confiar. Olhar para Tomé é olhar para a nossa própria humanidade que, embora vacilante, é profundamente amada por Jesus.
- As marcas gloriosas: Cicatrizes que identificam Jesus e nos curam
Jesus ressuscitou, mas manteve as marcas dos pregos nas mãos e nos pés e do Seu lado aberto. Por que manter “falhas” em um corpo glorioso? Porque as chagas são as provas definitivas do Seu amor e da Sua identidade. Elas provam que o Cristo que venceu a morte é o mesmo que sofreu na Cruz. O diálogo com Tomé — sobre colocar ou não o dedo nas chagas do Senhor — nos ensina que Jesus se inclina à nossa fraqueza e usa Suas próprias feridas para curar a nossa incredulidade.
- Felizes os que não viram e creram: Uma fé esclarecida
Jesus encerra o encontro com uma bem-aventurança dedicada a nós. A fé cristã não é uma “fé cega”, mas sim “supraracional”: ela usa a razão e a ciência, mas vai além delas. Em um mundo de incertezas e imagens enganosas, somos chamados a um “consentimento inteligente” à Revelação. Podemos não ver fisicamente como os apóstolos, mas cremos pelo testemunho de muitos e pela nossa experiência pessoal na oração.
Passos da Lectio Divina
- Leitura (Lectio): Leia João 20,19-31. Observe os detalhes: as portas fechadas, a saudação (Shalom!) e o sopro de Jesus, a ausência e depois a presença de Tomé. Sinta o clima de paz que Jesus estabelece.
- Meditação (Meditatio): Em que momento da minha vida eu me comporto como o “gêmeo” de Tomé? Tenho me afastado da comunidade ou da oração por não “sentir” ou “ver” a presença de Deus? O que Jesus quer me dizer ao mostrar Suas chagas hoje?
- Oração (Oratio): Dialogue com o Senhor. Você pode usar a profissão de fé de Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!”. Peça a graça de uma fé mais firme e agradeça pela misericórdia que Ele exerce sobre suas dúvidas e quedas.
- Contemplação (Contemplatio): Repouse no silêncio. Imagine Jesus soprando sobre você o Espírito Santo e dizendo: “A Paz esteja com você!”. Deixe que essa paz atravesse as portas fechadas do seu coração (medo, rancor, desânimo).
- Ação (Actio): A misericórdia recebida deve ser partilhada. Identifique alguém que, como Tomé, está afastado ou passando por crises de fé, e seja para essa pessoa um sinal de acolhida e testemunho da alegria da Ressurreição.