“Naquele tempo, os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado. Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram. Então Jesus aproximou-se e falou: «Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo».” (Mt 28,16-20)
Introdução
Hoje celebramos a Solenidade da Ascensão do Senhor. Em alguns lugares ela é celebrada na própria Quinta-feira, quarenta dias após o domingo da ressurreição. Porém, no Brasil e em muitos outros países, por razões pastorais, é transferida para o domingo. No ano A meditamos com o Evangelho de Mateus 28,16-20, cinco versículos e toda a riqueza da Palavra de Deus.
Um primeiro ponto a observar é que a Ascensão propriamente dita não é relatada no texto de hoje. Em São Lucas e em São Marcos há relatos próprios da subida de Jesus ao Céu, mas não no de São Mateus que termina com um último encontro de Jesus e os discípulos, na Galileia. Aqui Jesus faz um envio e uma promessa, o «Ide e fazei discípulos» e o «Eu estarei convosco até o fim dos tempos», que iluminam toda esta passagem.
É bom recordar a profundidade do mistério que celebramos. Na Bíblia, o Céu não é um lugar físico, no sentido em que conhecemos, o espaço acima da terra. Se Jesus tivesse subido ao espaço sideral, mesmo viajando na velocidade da luz, em 2000 anos ainda não teria saído da Via Láctea, que é apenas uma das galáxias do universo. O Céu é, antes de tudo, uma outra dimensão espiritual, um estado da alma. Um dia, quando Jesus voltar, sim, será também um lugar físico: porque cremos na ressurreição da carne, e a carne precisa de um lugar.
E é esta a nossa fé ao celebrarmos a Ascensão (diferente da Assunção da Virgem Maria): a nossa carne será ressuscitada com Cristo e irá para o Céu, como professamos no Credo «Creio na ressurreição da carne e na vida eterna». Jesus subiu ao Céu com a nossa carne humana, como primícias da humanidade. Há alguém como nós na eternidade divina, e não só Ele, mas também Maria santíssima, Nossa Senhora, que o Catecismo chama de «ícone escatológico» (CIC 972), sinal do que seremos para sempre.
Escolhemos cinco pontos para a meditação desta semana baseados no podcast, que você pode assistir com as legendas em seu idioma.
1. O monte que Jesus lhes tinha indicado
“Os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado” (Mt 28,16)
Que monte é esse? Os exegetas especulam várias possibilidades — o Tabor, o Hermon, e outros. Mas o Evangelho não o identifica. E quando a Palavra de Deus não nomeia, podemos nos colocar ali — como fizemos ao meditar sobre Tomé, o Dídimo (gêmeo), e o discípulo amado.
Na Bíblia, o monte é, por excelência, o lugar de encontro com Deus na oração. Moisés sobe ao monte Sinai para falar com Deus; Elias sobe o Horeb para encontrá-lO; Abraão sobe o monte Moriá com Isaac para oferecer o sacrifício. Jesus mesmo, ao longo da sua vida pública, sobe várias vezes ao monte para rezar.
Portanto, o monte que somos indicados a subir é o «monte» da oração onde cada um se encontra com o Senhor. Não apenas os apóstolos que foram convocados àquele monte na Galileia: nós também somos convocados, a cada dia, ao nosso lugar de oração. E podemos dizer como São Pedro na Transfiguração: «Senhor, é bom estarmos aqui» (Mt 17,4).
2. Quando viram Jesus, prostraram-se… alguns duvidaram
“Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram” (Mt 28,17)
A prostração tem dois sentidos. Primeiro, é um sinal de adoração e respeito diante do Senhor que se manifesta. Mas a prostração é também abatimento, entrega, aceitação de uma situação diante de Deus. É a postura do sacerdote no início da liturgia da Sexta-Feira Santa e a dos candidatos à ordenação presbiteral e diaconal que se prostram por terra no momento da Ladainha de Todos os Santos.
Se você está prostrado, abatido em meio a alguma provação ou com dúvidas, entregue-se ao Senhor, esteja simplesmente diante dele. E veja o que o evangelista diz na continuação do mesmo versículo: «Então Jesus aproximou-se e falou». Também na nossa oração Jesus se aproxima de nós e nos fala.
Em quaisquer dificuldades ou tribulações busque o Senhor na oração e Ele virá ao seu encontro. Se possível, ajoelhe-se. Como diz o Padre Saulo, da Comunidade Shalom: «Quando minha alma está com dificuldade de rezar, quando minha mente está cheia de coisas, eu me ajoelho — porque se a minha mente não está rezando, se a minha alma não está rezando, pelo menos o meu corpo estará rezando».
3. Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra
“Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra” (Mt 28,18)
A autoridade de Jesus foi dada pelo Pai. Jesus é Rei, o Soberano sobre todos. O Salmo de hoje é aplicado ao Senhor: «Deus reina sobre todas as nações e está sentado no seu trono glorioso» (Sl 46(47),9). O imperador romano que dominava o mundo então, não é mais o senhor desta terra. Jesus é Senhor — Kyrios e «ao nome de Jesus, todo joelho se dobre, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor» (Fl 2,10-11), dirá São Paulo.
Antes de começar a vida pública Jesus foi levado ao deserto e lá o diabo o tentou: «Eu te darei todo este poder com a glória destes reinos, porque ela me foi entregue e eu a dou a quem eu quiser. Por isso, se te prostrares diante de mim, toda ela será tua» (Lc 4,6-7). Era uma promessa furada, pois o diabo não tinha essa autoridade e poder. A autoridade agora pertence a Cristo que recebeu do Pai todo o poder no céu e sobre a terra.
Há ainda outro aspecto desta palavra «autoridade» — em latim, auctoritas — que vem de augere, e significa «fazer crescer». Quem tem autoridade — seja numa empresa, na família, na Comunidade, como Formador Comunitário ou em qualquer posição de liderança — deve ser aquele que ajuda os subordinados a crescerem. Jesus tem essa autoridade do Pai e a comunica aos seus: quando constitui Pedro, dá-lhe autoridade para confirmar os irmãos, para apascentar as ovelhas, para fazer crescer a Igreja. «Confirma teus irmãos» (Lc 22,32) — é este o sentido cristão de autoridade.
4. Ide e fazei discípulos
“Portanto, ide e fazei que todos os povos se tornem discípulos…” (Mt 28,19)
A missão agora se amplia. Durante a vida pública, Jesus enviara os discípulos de dois em dois, primeiramente «às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt 10,6). Agora, antes de subir ao Céu, o envio é universal a «todos os povos».
Há dois movimentos neste mandato: o «ide» implica na desinstalação, no deixar a «zona de conforto». Ser discípulo de Jesus é sair, é evangelizar. «Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!» (1Cor 9,16), diz São Paulo. Não fiquemos esperando que as ovelhas cheguem à Igreja. Conta-se que o Santo Cura d’Ars, quando chegou àquela aldeia perdida nas montanhas quase ninguém ia à missa. Ele então começou visitar os paroquianos, a se colocar à disposição e a ouvir confissões. Em pouco tempo, vinha gente de toda a França àquela pequena cidadezinha para encontrar o Santo Cura.
E o «fazei discípulos» é o ensino, a catequese. Não apenas o primeiro anúncio querigmático, mas a formação contínua na fé, o ensino da doutrina. Hoje, muitos católicos ficam apenas na catequese feita para a Primeira Comunhão e, sem conhecer melhor a sua fé, ficam vulneráveis aos pregadores de outras denominações. Por isso, o apelo: não se contente com o conhecimento que você tem da doutrina. Se você tem dúvidas, procure um padre ou um leigo bem formado. Comece pela leitura da Palavra de Deus e do Catecismo da Igreja Católica, disponível na internet e nas livrarias católicas. Antes de ler os místicos como São João da Cruz e Santa Teresa d’Ávila leia o Catecismo. Primeiro busque a base, depois vá se aprofundando. Muitos evangélicos, que procuram a Verdade e ao estudarem os Padres da Igreja, especialmente sobre o mistério eucarístico, voltam para a Igreja. Como disse Santo Irineu sobre a Eucaristia: «É Jesus, e acabou-se». É o que Jesus afirmou solenemente: «Isto é o meu corpo» (Mt 26,26).
5. Eu estarei convosco
“E eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo!” (Mt 28,20)
No Evangelho de Mateus temos no seu começo e no seu fim uma mesma afirmação. No início, o anjo anuncia a José que o menino que Maria concebera era o cumprimento da profecia de Isaías 7,14: «Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão de Emanuel que significa: ‹Deus está conosco›» (Mt 1,23). E aqui, no fim do Evangelho, Jesus mesmo o confirma: «Eu estarei convosco».
O «convosco» está no plural, pois Jesus dissera: «Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles» (Mt 18,20). Mas o Senhor está também conosco na oração pessoal, na Eucaristia, na Palavra, e nos menores dos irmãos. E nos faz lembrar São Pio de Pietrelcina que tem uma belíssima oração: «Fica comigo, Senhor».
É na oração que Jesus se revela a si mesmo, e nessa revelação nos revela quem somos. Nesse sentido as duas Teresas carmelitas se completam. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia: «Eu sou o que Deus pensa de mim». E Santa Teresa d’Ávila rezava: «Alma, busca-te em mim, e a mim busca-me em ti». Sem essa intimidade quotidiana com o Senhor, a vida se perde.
Passos da Lectio Divina
Leitura (Lectio)
Tome a Bíblia e leia atentamente esses cinco versículos de Mateus 28,16-20. Leia uma primeira vez de modo corrido, depois leia uma segunda vez mais devagar. Que palavra, que frase, que detalhe da cena lhe chamou mais atenção?
Meditação (Meditatio)
Volte aos cinco pontos da meditação: o «monte» como lugar da oração; a prostração como adoração e como entrega; a autoridade que Cristo recebeu do Pai; o envio missionário; a promessa do Emanuel, Deus conosco. Detenha-se naquele em que o Espírito está falando ao seu coração hoje. Por que justamente este?
Oração (Oratio)
Responda ao Senhor com as suas próprias palavras, conforme o Espírito Santo o(a) mover. Se quiser, reze a oração final, a belíssima oração «Fica comigo, Senhor», de São Pio de Pietrelcina.
Contemplação (Contemplatio)
Repouse, em silêncio, no mistério de hoje. Jesus subiu aos céus com a nossa carne humana — como primícias. Há alguém como nós, em corpo e alma, na eternidade divina. E há ainda Maria, ícone escatológico: o sinal daquilo que seremos. Deixe que essa certeza dilate o seu coração.
Ação (Actio)
E agora, à luz do que rezou: em que área da sua vida ainda precisa se submeter ao senhorio de Cristo? Quem é a pessoa concreta a quem o Senhor lhe envia, esta semana, para anunciar o Evangelho — pela palavra, pelo testemunho, pela escuta? Há alguém que você pode ajudar a crescer na fé?
Até a próxima semana!
Shalom!
Oração final: Fica comigo, Senhor!
Fica Senhor comigo, pois preciso da Tua presença para não te esquecer.
Sabes quão facilmente posso te abandonar.
Fica Senhor comigo, porque sou fraco e preciso da Tua força para não cair.
Fica Senhor comigo, porque és minha vida, e sem Ti perco o fervor.
Fica Senhor comigo, porque és minha luz, e sem Ti reina a escuridão.
Fica Senhor comigo, para me mostrar Tua vontade.
Fica Senhor comigo, para que ouça Tua voz e te siga.
Fica Senhor comigo, pois desejo amar-te e permanecer sempre em tua companhia.
Fica Senhor comigo, se queres que te seja fiel.
Fica Senhor comigo, porque, por mais pobre que seja minha alma, quero que se transforme num lugar de consolação para Ti, um ninho de amor.
Fica comigo, Jesus, pois se faz tarde e o dia chega ao fim; a vida passa, e a morte, o julgamento e a eternidade se aproximam. Preciso de Ti para renovar minhas energias e não parar no caminho. Está ficando tarde, a morte avança e eu tenho medo da escuridão, das tentações, da falta de fé, da cruz, das tristezas.
Oh, quanto preciso de Ti, meu Jesus, nesta noite de exílio!
Fica comigo nesta noite, Jesus, pois ao longo da vida, com todos os seus perigos, eu preciso de Ti. Faze, Senhor, que te reconheça como te reconheceram teus discípulos ao partir do pão, a fim de que a Comunhão Eucarística seja a luz a dissipar a escuridão, a força a me sustentar, a única alegria do meu coração.
Fica comigo, Senhor, porque na hora da morte quero estar unido a Ti, se não pela Comunhão, ao menos pela graça e pelo amor!
Fica comigo, Jesus. Não peço consolações divinas, porque não às mereço, mas apenas o presente da tua presença, ah, isso sim eu te suplico!
Fica Senhor comigo, pois é só a Ti que procuro o Teu amor, a Tua graça, a Tua vontade, o Teu coração, o Teu Espírito, porque te amo, e a única recompensa que te peço é poder amar-te sempre mais.
Como este amor resoluto, desejo amar-te de todo o coração enquanto estiver na terra, para continuar a te amar perfeitamente por toda a eternidade. Assim seja.