O Evangelho de João 14,1-12, proclamado neste 5º Domingo da Páscoa, Ano A, está dentro do longo discurso de despedida de Jesus na Última Ceia (Jo 13–17). Os apóstolos acabam de ouvir o anúncio da traição de Judas e da negação de Pedro e o coração deles está perturbado. É nesse contexto que Jesus pronuncia as palavras de consolo que abrem o Evangelho deste Domingo: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também” (Jo 14,1). O versículo que sintetiza a meditação de hoje, porém, é o pedido de Felipe e a resposta de Jesus: “Mostra-nos o Pai, e isso nos basta” — “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,8-9). É uma das mais límpidas revelações do Pai feitas pelo Filho em todo o Evangelho.
Para te ajudar a rezar com esta Palavra, apresentamos cinco pontos centrais que meditamos no episódio do podcast — disponível com legendas em vários idiomas no nosso canal do YouTube (https://youtu.be/fHkypzLb_F8?si=9QtPGad9UAoboPux).
1. “Tendes fé em Deus, tende fé em mim também”
Jesus não está convidando os que creem em Deus a passar a crer também n’Ele como se fossem dois objetos de fé separados. Ele está, sim, dirigindo-se a discípulos que já creem em Deus (o Pai) e oferecendo-lhes uma palavra de consolo diante da Cruz que se aproxima. É como se dissesse: “Vocês creem que Deus é Todo-poderoso e sabe o que faz; creiam também que Eu sei o que estou fazendo”. Diante da provação iminente — a paixão, a cruz, o abandono deles — Jesus pede que os apóstolos não percam a confiança nEle.
Esta mesma Palavra ressoa hoje sobre as nossas tribulações. Quando a angústia, a doença, o luto, a perseguição ou a incompreensão baterem à nossa porta, é fácil o coração se perturbar. Jesus nos repete: “Tende fé.” O Pai sabe o que faz, e o Filho, igualmente, sabe o que faz. Recordemos da fé de Davi diante de Golias: “O Senhor que me livrou da garra do leão e do urso me livrará também das mãos deste filisteu” (1Sm 17,37). É a mesma confiança que o Senhor pede de nós, sobretudo sabendo que nosso caminho também passa pela cruz, porém cremos que “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28).
2. “Na Casa de meu Pai…”
A Casa do Pai evoca, antes de tudo, o Templo de Jerusalém — a “Casa de oração” da qual Jesus expulsa os vendilhões (cf. Mt 21,13) e onde, ainda menino, Maria e José O encontram dizendo: “Não sabíeis que devia estar na casa de meu Pai?” (Lc 2,49). Mas a Tradição espiritual abre, sobre esta imagem, três grandes horizontes para a nossa oração.
O primeiro é a nossa alma como morada de Deus: Santa Teresa d’Ávila, no seu livro “Castelo Interior ou Moradas”, e Santa Elizabeth da Trindade, na sua doutrina da inabitação trinitária, nos ensinam que a Santíssima Trindade habita na alma em estado de graça. E Santo Agostinho lamentava no seu livro “Confissões”: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Tu estavas dentro de mim, e eu fora.”
O segundo é a Jerusalém celeste do Apocalipse de São João, o Céu, a Casa definitiva onde o Pai enxugará toda lágrima dos nossos olhos (cf. Ap 21,2-4) — para a qual Jesus vai preparar-nos um lugar.
O terceiro é a Casa do Pai como o regaço da misericórdia: é a parábola do filho pródigo (cf. Lc 15,11-32). Se você se encontra fora — fora do Pai, fora de si mesmo, fora da graça — a Casa do Pai está sempre com as portas abertas. O Senhor está à porta e bate (cf. Ap 3,20).
3. “Eu vou para o Pai”
Quem é o Pai do qual Jesus tanto falava? Felipe então vai pedir: “Mostra-nos o Pai, e isso nos basta” (Jo 14,8). E o Senhor o responde: “Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Felipe? Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9). É uma das afirmações mais centrais da Revelação cristã. Jesus não é um esquizofrênico que fala consigo mesmo: Ele dirige-se a outra Pessoa, distinta d’Ele, que é o Pai — e ao mesmo tempo é uma só substância com Ele. “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30).
Aqui se revela, em germe, a teologia da Santíssima Trindade. As Pessoas divinas distinguem-se entre si pela relação e pela missão — o Pai é o Criador, o Filho é o Redentor, o Espírito Santo é o Santificador — mas há um só Deus em três Pessoas iguais e distintas. A doutrina trinitária não foi invenção posterior dos Concílios: ela já estava nas Escrituras e foi colocada nos Credos da Igreja. Os Concílios de Niceia (325) e Constantinopla (381) apenas explicitaram em linguagem grega da substância e da Pessoa, o que já estava revelado na Palavra de Deus.
No Prólogo joanino lemos: “A Deus, ninguém jamais O viu. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, esse O deu a conhecer” (Jo 1,18). Quem quiser encontrar o Deus invisível, busque Jesus: Ele é o rosto humano de Deus. E mais: o Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes 22, ensina que “Cristo, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, manifesta plenamente o homem ao próprio homem”. É em Jesus que descobrimos quem é o Pai — e quem somos nós.
4. “Eu sou o Caminho”
Tomé pergunta: “Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” (Jo 14,5). E Jesus responde com uma das sete grandes afirmações do “Eu Sou” do Evangelho de João: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Hoje destacamos essa primeira: “Eu sou o Caminho.”
Como no texto do Bom Pastor em que Jesus diz: “Eu sou a porta” (Jo 10,7) e em Mateus quando fala da “porta estreita” (Mt 7,13), o “Caminho” é uma tipologia: Jesus não tem um paralelepípedo na mão quando afirma ser “O Caminho”. Ele se apresenta assim porque de fato é: Aquele por quem se passa, Aquele em quem se permanece, Aquele que conduz ao Pai. Os primeiros cristãos foram, por isso, conhecidos como “seguidores do Caminho” (cf. At 9,2; 19,9.23; 24,14.22).
E este Caminho passa pela Cruz e culmina na Ressurreição. Jesus já advertira os seus: “Se fizeram isto com o lenho verde, que será do seco?” (Lc 23,31). A Cruz é, no Quarto Evangelho, elevação e glória: “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). Por isto também é que toda Oração Eucarística termina com a doxologia: “Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre.” Tudo é dirigido ao Pai, por, com e em Jesus, no Espírito Santo.
5. “Fareis obras maiores do que estas”
O Evangelho de hoje termina com a frase “Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai” (Jo 14,12). À primeira vista, essa promessa surpreende: como podem os discípulos fazerem obras maiores do que as do próprio Senhor? A chave não está num maior “poder” dos discípulos — Jesus é Deus e nós somos criaturas, “servos inúteis” (Lc 17,10), mas está no alcance e na humildade das obras que Ele permitir que as realizemos. Jesus pregou cerca de três anos a um povo limitado, na Galileia e na Judeia. Os apóstolos pregaram até os confins da terra e, através deles, bilhões chegaram à fé até hoje. São Pedro, num único discurso em Pentecostes, batizou três mil pessoas (cf. At 2,41); curou, em nome de Jesus, um paralítico à porta do Templo (cf. At 3,1-10); a sua própria sombra trazia cura aos doentes (cf. At 5,15) — sinal que os Evangelhos não atribuem nem mesmo à sombra de Jesus. Paulo curou várias pessoas, ressuscitou Êutico (cf. At 20,9-12), foi mordido por uma víbora sem nenhum dano (cf. At 28,3-6). Serão “obras maiores”, porque feitas por servos pequenos.
Quanto mais nos reconhecermos pequenos, mais Deus pode realizar maravilhas através de nós. Toda cura, toda conversão, toda graça que passa pela nossa ação ou intercessão é, em verdade, obra d’Ele — e por isso mesmo é “maior” do que tudo o que poderíamos fazer com as nossas próprias forças. “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5); mas “tudo posso n’Aquele que me fortalece” (Fl 4,13).
Passos da Lectio Divina
- Leitura (Lectio): Leia com calma e atenção Jo 14,1-12. Repare na sequência do diálogo: o consolo inicial de Jesus (v. 1-4); a pergunta de Tomé sobre o caminho (v. 5-7); o pedido de Felipe para ver o Pai (v. 8-11); a promessa das obras maiores (v. 12). Sublinhe as palavras que mais te tocaram.
- Meditação (Meditatio): Que “perturbações” do seu coração o Senhor te convida a entregar-Lhe hoje? Você tem realmente fé em Deus e em Jesus, ou tenta dar o seu “jeitinho” diante das provas? Você procura o rosto do Pai em Jesus — na oração, na Palavra, na Eucaristia? Você tem caminhado por Ele ou por outros caminhos?
- Oração (Oratio): Converse com Jesus a partir das palavras que mais te tocaram. Peça a graça da fé e da confiança nos momentos de provação. Peça ao Filho que Te revele o Pai. Peça ao Espírito Santo que Te ajude a permanecer no Caminho que é Jesus. Continue, conforme o Espírito te mover.
- Contemplação (Contemplatio): Faça uma visita ao Santíssimo Sacramento — presencial ou, ao menos, espiritualmente. Deixe-se olhar por Aquele que é o rosto humano do Pai. Recorde que a tua alma, em graça, é morada da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo habitam em ti desde o Batismo. Repouse e contemple longamente esta verdade.
- Ação (Actio): Que pequena “obra” concreta o Senhor te pede esta semana? Um gesto de confiança numa situação difícil; uma visita a alguém que precisa de consolo; uma reconciliação adiada; um momento fixo de oração. Toda obra feita por amor, com Ele e n’Ele, é “maior” do que tu imaginas.
Assista ao episódio completo e acompanhe a meditação detalhada no nosso canal do YouTube — https://youtu.be/fHkypzLb_F8?si=9QtPGad9UAoboPux — escolhendo as legendas no idioma desejado.
Até o próximo sábado!
Shalom!
